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Ciclo Avançado - O Avesso da Psicanálise - Seminário 17

November 19, 2019

No terceiro encontro do Ciclo Avançado de 2019, Fernando Prota (psiquiatra, psicanalista, membro da EBP/AMP) trabalhou os capítulos “III – Saber, meio de gozo” e “IV – Verdade, irmã de gozo” do “Seminário XVII – O avesso da psicanálise”.

 

Para situar a discussão, Fernando inicia sua fala pontuando que, nesses capítulos, além do conceito de gozo já contido nos títulos, o que está em pauta é o “discurso do analista”. Muito precisamente, aponta o fato que no “discurso do analista” está incluso não só a prática da psicanálise, mas também sua transmissão. Essa ideia traz à tona a dimensão da psicanálise como uma práxis, não se pode dissociar teoria, prática e transmissão. É a partir desse ponto de enodamento que Fernando propõe sua fala.

 

No capítulo III, Lacan nos apresenta o “discurso do analista” como uma consequência lógica da psicanálise. O fato da psicanálise não operar segundo o discurso universitário, faz com que ela tenha suas próprias leis e opere segundo o “discurso do analista” a partir do qual a verdade pode ser definida como um semi-dizer. Isto é, o efeito de verdade só pode ser verificado a partir de suas consequências lógicas. Operando por essa lógica, Lacan conclui que o psicanalista é aquele que sustenta o “discurso do analista”. Como questão em aberto, perguntamo-nos se ainda podemos usar essa definição de psicanalista atualmente?

 

Fernando parte, então, para os operadores lógicos do “discurso do analista” analisando os seus termos. No discurso do analista, o lugar de agente – chamado por Lacan de dominante– é o do objeto (a), é nesse lugar que o analista se encontra. Lacan pontua que o lugar dominante/agente é aquele que dá a característica do discurso, de onde o discurso parte.

 

 Novamente apontando para a ideia de indissociabilidade e de semi-verdade, Lacan afirma que neste discurso o objeto não é abordado de forma separada do falar sobre o próprio objeto, isto se sobrepõe. Os desvios do caminho para se falar do objeto é o próprio objeto. É neste percurso que o objeto vai sendo contornado. Só temos acesso a esse movimento. Portanto, segundo Fernando, a transmissão da psicanálise deve incluir esse movimento, por isto não seria possível fazer um recorte somente de um conceito ou do “último ensino de Lacan”, ou separar teoria e prática, por exemplo.

 

Partindo desse pressuposto, Fernando conclui que os discursos não são apenas construtos teóricos, mas importantes dados clínicos. Os discursos não são apenas um indicativo da posição subjetiva, mas eles trazem a marca da repetição e do gozo. O que está em jogo é como um significante em sua relação com o outro produz gozo.

 

É o significante que vai introduzir o gozo, o excesso. E a repetição marca o fracasso, porque a repetição é sempre substituta, ela contém uma perda, um menos. Pois, não é possível repetir a experiência primária. Nunca se repete plenamente, há sempre uma perda de gozo, e é nesse lugar de perda que se localiza o objeto (a). A busca pela recuperação desse gozo perdido é pela via do mais-de-gozar, cria-se um outro gozo, suplementar.

 

Neste ponto, Fernando faz uma indicação clínica muito importante: “sempre escutamos a repetição e poucas vezes damos atenção ao que se perde na repetição”. A perda é o essencial e é preciso ouvir e marcar o que há de diferença – a marca da perda – na repetição.

 

Num esforço de síntese, pode-se dizer que a marca do trauma – traço unário – gera uma estrutura de saber (inconsciente), que gera um gozo, sempre repetido e sempre em perda. É o traço unário (o trauma da linguagem) que produz um saber de gozo, uma repetição inaugural. No lugar da perda estrutural, encontra-se o objeto (a). Nesses termos, o saber inconsciente seria uma articulação significante que dá lugar ao objeto (a) como meio de gozo.

 

A perda da qual estamos falando está fora da linguagem, por isso que é a verdade é um semi-dizer. Aqui, Fernando traz uma outra questão clínica: “o que é possível fazer com o que não entra na linguagem? Como isto opera numa análise?”

 

A discussão a respeito dessa pergunta leva a uma possível resposta, que não fecha a questão, mas nos leva a outro dado clínico: o que se espera é que em uma análise é que o saber funcione em termos da verdade como semi-dizer. Fernando deixa muito claro que a verdade em questão é a do inconsciente do analisante. O saber do analista deve encarnar a verdade do analisante. Não se trata de um saber dito, positivo. No esquema do discurso do analista, este saber fica abaixo da barra, permanece como enigma, enunciação, não passível de ser enunciado.

 

Assim, no “discurso do analista” a subjetividade em questão é a do analisante, é o analisante que opera a partir do discurso do analista. O analista empresta sua presença para encarnar o objeto (a).

 

Conclui-se esse capítulo com uma questão acerca da clínica: “se a verdade é sempre um semi-dizer, qual tipo de saber se produz em uma análise? E quais as consequências de uma análise para o sujeito?”. Fernando lembra que esta questão remete ao início da discussão, e retoma a ideia de indissociabilidade para falar do passe como dispositivo de transmissão desse saber.

Do capítulo IV, Fernando destaca a crítica de Lacan em relação ao “discurso universitário”. Essa crítica é feita a partir da noção de verdade como semi-dizer. A verdade seriam marcas inconscientes em relação ao gozo. Nesse sentido, uma verdade que se reduz ao significante. Porém, como a verdade é um semi-dizer, ela não é só o que se reduz ao significante, mas o que escapa a ele também.

 

Assim, Lacan liga a verdade ao conceito de unheimlich de Freud. Para ele, é desse lugar que o analista opera. Portanto, a verdade não pode ser tomada separada dos efeitos da castração, como o “discurso universitário” insiste em fazer. Para Lacan, não existe verdade objetivada. Porque o que sustenta o saber do discurso universitário é “a entidade ciência” como imperativo (S1). O eu de quem fala e o objeto estão sustentados na mesma verdade, portanto, não é possível haver objetividade. E como consequência lógica, nem verdade objetiva, apenas semi-dizer, um saber que sempre inclui o sujeito.

 

Encerramos o encontro com diversos questionamentos que já nos instigam para o trabalho com os próximos capítulos. Fernando apresentou uma fala viva que não só marcou o enodamento entre teoria, prática e transmissão, mas colocou isso no vivo de suas palavras, como ele mesmo disse “o que fica fora da linguagem, não é possível de dizer, mas é preciso fazer isso passar pelas palavras”.

 

No próximo encontro, Emmanuel Mello (associado ao Clin-a) trabalhará o “cap. V – O campo lacaniano” para encerrar o Ciclo Avançado de 2019. Até Lá!

Kátila Kormann Morel

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