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Conferência de abertura do Ciclo avançado sobre O avesso da psicanálise, seminário 17 de Lacan

August 28, 2019

 

“O mestre contemporâneo e o triunfo dos objetos” foi como Henri Kaufmanner, querido colega de Minas, nomeou sua conferência do Ciclo Avançado que se inicia. Convidado a falar sobre a articulação com a clínica e com as questões contemporâneas, Henri fez uma fala viva, num percurso que situa o discurso e o momento da época, enfatizando as mudanças não só na dimensão discursiva, sob o efeito do avanço da ciência e do capitalismo, mas na relação de uso dos objetos, levantando questões atuais que nos servirão ao longo do ciclo.

 

Ele abre com a pergunta: “Como a psicanálise se coloca diante da vida contemporânea?” Entende que na época do seminário, próximo a maio de 68, viveu-se uma mudança de paradigma, onde se verificava uma fragilidade da estrutura discursiva e o Discurso Universitário se sobrepunha ao do Mestre, a ponto de Lacan dizer aos estudantes: “Vocês estão procurando um mestre!”.

 

Henri faz uma passagem pelo Seminário 7, o seminário da Ética, onde se pode ler com Lacan que o capitalismo estava aliado ao puritanismo e a lógica dos discursos estabilizava as relações de sentido. No seminário 17 o sentido se dá pela estrutura discursiva, nos lugares de agente, Outro, produto e verdade de modo que não há relação estável entre significante e significado na relação com o referente, o objeto a.

 

Sendo assim, se pergunta sobre “Como lidar com o ineliminável do gozo, da demanda pulsional, do imperativo do goza!?”

 

Segundo Henri, no sem 7 a questão do Bem era sustentada numa mentira, a da verdade nos discursos, que deixa de ser puritano, pelo esvaziamento da função paterna e a oferta dos objetos de satisfação. Já em “Uma fantasia”, Miller aponta que o objeto ocupa o lugar de agente do discurso, se sobrepondo a dimensão do ideal. Como consequência não se tem mais o proletariado, é o Enxame e a dialética hegeliana não funciona mais da mesma forma. Hoje se tem S1 e S2 juntos, aliado ao excesso de informação, SI e S2 não se articulam. Não há sentido, há um esvaziamento, um empanzinamento. Coloca-nos diante de algo muito atual ao afirmar que já não adianta querer discutir. A crença não se apoia num mestre e o saber se desloca do referente, de modo que se torna difícil alcançar como esse discurso se constrói.

 

Com isso, afirma que apesar do avanço da ciência que vai em direção ao universalismo, se revela a incapacidade de tratar o ineliminável, o gozo do corpo de cada um que retorna.

 

Nessa construção Henri serve-se da clinica ao falar do caso Emma, retomando a verdade escondida no seu sintoma que regula o excesso de gozo. Com Hans ressalta que a estrutura discursiva faz operar a separação do gozo do corpo pela via da castração. E vai ao seminário 14, onde Lacan diferencia da leitura que fez no seminário 5 sobre o “Bate-se numa criança”, enfatizando não a dimensão edípica, mas a fantasia como um arranjo, que permite um certo tratamento do gozo, antevendo a inexistência do Outro. Nessa articulação clínica, cita o caso de um psicótico para dizer que a experiência de corpo se impõe e não se trata de compreender.

Assim, com o esvaziamento de sentido e o fracasso da universalização, vive-se um desamparo no retorno do ineliminável que afeta o corpo, sem a castração, com o domínio da angústia e em alguns casos, o avanço das adições.

 

A avalanche dos objetos de consumo passa a resposta ao sofrimento, numa servidão voluntária. E o mundo da tecnologia traz como contraponto, a obsolescência, a multiplicação dos restos. Acumulo de restos, sem valor fálico, sem a dimensão simbólica. Nesse contexto a morte passa a ser o tema do dia a dia, cada um se faz resto, é o triunfo do objeto enquanto resto.

 

Com o discurso capitalista temos um circuito autônomo, disjunto do sujeito numa relação direta com o objeto, uma espécie de holofraseamento entre S1e S2, onde o saber não se articula à verdade e se pode falar o que for, que a verdade não está em cena mais, se impõe pela metonímia das letras. São números, uma multiplicação de noticias contábeis. Nesse mundo baseado na evidência, a informação deforma o saber transformando-se também numa imposição de consumo.

 

Henri se pergunta: “Como nos arranjamos num mundo onde o pai não invoca o amor e deste modo a dimensão simbólica não se enlaça, ficando precário o velamento do ineliminável?”

 

E faz uma passagem pelo que encontramos hoje: a sociedade do espetáculo onde as parcerias se fazem pela segregação dos modos de gozo; a impossibilidade de enlaçamento simbólico desse gozo que acentua o declínio do semblante e é constatado pelo fake, denunciando o esvaziamento da verdade, onde S1S2 corre sozinho; o triunfo do objeto sobre a imagem narcísica, o objeto enquanto resto.

 

Então, quais as consequências, na medida em que não há o eu? A sombra do objeto recai sobre o eu, aumentando os quadros depressivos e o suicídio. Um mundo não-todo, sem o tratamento do gozo que o contingencie. Nesse mundo a internet é o não-todo onde não se sabe qual a borda, onde começa onde termina.

 

 Para concluir, Henri lança a pergunta: “O que se faz com isso?” Já propondo um caminho, ele diz: “Conversa”.

 

Segundo Henri é importante sair do domínio da informação, do circuito das letras por onde se caminha autonomamente, para que algo caia como objeto e esvazie esse caminho ao obsoleto.

 

Com esse rico percurso que abre outros, percorreremos a leitura capitulo a capítulo do seminário 17, contando com as questões provocadas pela conferência e aquelas que surgirem dos participantes do ciclo.

 

Nosso próximo encontro será dia 28 de setembro, nos encontramos lá!

 

Sílvia Sato, coordenadora do Clin-a em Ribeirão Preto.

 

 

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