Ciclo Avançado sobre o Seminário 17 de Jacques Lacan

Coordenação: Sílvia Sato

Local: Clin-a - Rua Galileu Galilei, 1800/sala 905 Ribeirão Preto

Frequência: Mensal

Data: Mar: 07

Dia e horário: Sábado das 09h às 12h



* Conferência de Abertura - O mestre contemporâneo e o triunfo dos objetos, por Henri Kaufamanner, psicanalista, membro da EBP/AMP

Informações: silvasatorp@gmail.com - (16) 98156-5607


O analista deve estar à altura de seu tempo. No seminário 17, O Avesso da Psicanálise, oferecido pouco depois de maio de 1968, Lacan transmite em ato essa premissa e se debruça sobre a experiência analítica articulando linguagem e gozo, por meio da formulação dos quatro discursos.


Ao enfatizar o laço social através dos discursos, estabelece uma relação de trama por onde se transmite algo do vivo, destacando os modos de satisfação de cada época.


No seminário 10 - A angústia, que trabalhamos no último Ciclo avançado, Lacan ressaltou o valor de causa de desejo e de agalma do objeto a. Já com O avesso da psicanálise, podemos dizer que sob efeito do capitalismo, enquanto mestre atual, o objeto tem seu valor por ser consumível, para em seguida virar dejeto e ser esquecido.


Em torno dessa trama que articula discurso e satisfação, convidamos para o novo Ciclo Avançado, com o qual nos perguntamos sobre a atualidade do que apresenta esse Avesso e como afeta tanto o laço social quanto a subjetividade de hoje?


Para provocar o trabalho, receberemos o psicanalista Henri Kaufmanner membro da EBP/AMP que fará a conferência: O mestre contemporâneo e o triunfo do objeto.

Conferência de abertura do Ciclo avançado sobre O avesso da psicanálise, seminário 17 de Lacan

“O mestre contemporâneo e o triunfo dos objetos” foi como Henri Kaufmanner, querido colega de Minas, nomeou sua conferência do Ciclo Avançado que se inicia. Convidado a falar sobre a articulação com a clínica e com as questões contemporâneas, Henri fez uma fala viva, num percurso que situa o discurso e o momento da época, enfatizando as mudanças não só na dimensão discursiva, sob o efeito do avanço da ciência e do capitalismo, mas na relação de uso dos objetos, levantando questões atuais que nos servirão ao longo do ciclo.

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Resenha Ciclo Avançado Ribeirão Preto

Em 28/09/2019, ocorreu o início do trabalho em relação ao Seminário 17 de Lacan (“O avesso da psicanálise”) no Ciclo Avançado proposto pelo CLIN-a de Ribeirão Preto. A apresentação dos dois primeiros capítulos foi feita por Diva Rubim, psicanalista e associada ao CLIN-a.


Uma vez que se trata de um seminário realizado entre 1969 e 1970, Diva fez um resgate histórico de 1968, ano marcado por diversas manifestações e movimentos sociais pelo mundo, sobretudo na França, com o estopim ocorrendo em maio daquele ano. Inclusive, a foto da capa do seminário retrata exatamente uma cena emblemática desse protesto e conta com a presença de uma figura importante, Daniel Cohn-Bendit.

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Ciclo Avançado

O Avesso da Psicanálise - Seminário 17

No terceiro encontro do Ciclo Avançado de 2019, Fernando Prota (psiquiatra, psicanalista, membro da EBP/AMP) trabalhou os capítulos “III – Saber, meio de gozo” e “IV – Verdade, irmã de gozo” do “Seminário XVII – O avesso da psicanálise”.

Para situar a discussão, Fernando inicia sua fala pontuando que, nesses capítulos, além do conceito de gozo já contido nos títulos, o que está em pauta é o “discurso do analista”. Muito precisamente, aponta o fato que no “discurso do analista” está incluso não só a prática da psicanálise, mas também sua transmissão. Essa ideia traz à tona a dimensão da psicanálise como uma práxis, não se pode dissociar teoria, prática e transmissão. É a partir desse ponto de enodamento que Fernando propõe sua fala.

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Ciclo Avançado – O Avesso da Psicanálise - Seminário 17


No dia 30/11/2019, dando continuidade ao ciclo avançado do CLIN-a da cidade de Ribeirão Preto, Emmanuel Melo apresentou o capitulo V “O Campo Lacaniano” do seminário XVII “O Avesso da Psicanálise” de Jaques Lacan. Abaixo, segue a resenha do que foi elaborado a partir de sua apresentação.


A “chave” do seminário XVII é que Lacan se distância das questões dos Discursos, estabelecendo uma relação entre o Campo do Gozo e o Campo Lacaniano. Nesse momento do ensino, Lacan esta apoiado no gozo enquanto repetição, avançando sobre o conceito de gozo dos primeiros seminários, que eram mais próximas ao Imaginário.

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Ciclo Avançado – O avesso da psicanálise – Seminário 17


O CLIN-a de Ribeirão Preto neste 7/03/2020 retomou os trabalhos referentes ao Seminário XVII de Lacan - O avesso da Psicanálise, o que foi feito com entusiasmo pelos presentes e contou com a apresentação do capítulo VI - O mestre castrado, pela psicanalista Maria Célia Reinaldo Kato.


No âmago de questões iniciais entre outras, foram colocadas a dos laços sociais: como se dão pelas vias do significante e gozo? E na análise, como se dá esta experiência dos discursos? Como cada época vive a pulsão sendo o laço social uma forma de enquadramento desta com perda de gozo?


Vimos que o objetivo de Lacan foi retomar o estatuto do $ e a psicanálise pelo avesso em conformidade com a verdade do inconsciente, considerando o discurso do mestre ( DM) como sendo o próprio discurso do inconsciente. Assim, o DM como o avesso da psicanálise põe um contraponto ao discurso analítico, sendo este um analisador daquele.


A novidade deste capítulo, vale ressaltar, é o significante mestre enquanto saber, que ao ser emitido na direção dos meios de gozo, determina a castração. Deste modo, o DM é equivalente ao discurso do inconsciente quando marca a entrada do sujeito na linguagem, ocasionando sua divisão. Nesta operação surge uma perda de gozo pela renúncia da pulsão e sobra um resto sob a forma de mais de gozar enquanto tentativa de recuperar o gozo perdido, que é da ordem do impossível.


Com a metáfora do senhor e escravo, de Hegel, vimos o saber no campo do Outro ( do escravo), com a verdade abaixo da barra , demarcando que o mestre é castrado.


A relação do DM com o discurso da histérica ( DH) mostrou a demanda histérica ao mestre, que ele responda sobre o que é a relação sexual. O caso Dora trazido por Lacan esclareceu a relação dela ao pai idealizado que, embora impotente, ocupava o lugar simbólico de potência quanto à criação. Deste modo, para Dora a castração do pai estava barrada.


Do que se trata aí? Dora tem a idéia de que o Sr K, terceiro homem, tem o órgão não para ela usar mas para que outra, a Sra K, a prive dele ( gozo da privação).


O segundo sonho de Dora marca que o pai simbólico é o pai morto, quando encontra para este pai seu substituto num grande dicionário, no qual se aprende sobre sexo: mais além da morte de seu pai, o que lhe importa é o que ele produz de saber sobre a verdade.


Lacan criticou Freud quanto ao tratamento das histéricas: por que substituiu o saber delas pelo do complexo de Édipo? Também questionou-se contradições do pai em Freud, pondo a caminho novo estatuto do pai.


De pai idealizado e mascarado com a verdade dissimulada sobre sua castração, Freud poderia ter se guiado melhor pelos dizeres das histéricas, o que levou Lacan a requestionar no nível da própria análise “ do quanto de saber é preciso para que esse saber possa ser questionado no lugar da verdade”.


Elisabeth Paschoalino, participante do Ciclo Avançado



CICLO AVANÇADO – O AVESSO DA PSICANÁLISE – SEMINÁRIO 17

No dia 29/08/20 foi dado continuidade ao ciclo avançado do Clin-a da cidade de Ribeirão Preto na plataforma online, Eduardo Benedicto (psicanalista, membro da EBP/AMP) apresentou o capítulo VII “Édipo e Moisés e o pai da horda” do seminário XVII – “O avesso da Psicanálise” de Jaques Lacan. Segue a resenha do que foi elaborado a partir de sua apresentação.


Eduardo primeiramente pontuou os movimentos que ocorriam na época da elaboração do seminário, são eles: movimento estudantil na França, ditadura no Brasil e outros concomitante. Uma leitura que se apresenta como chave para ler este capítulo é o texto de Miller: Seis paradigmas do gozo1. Acrescenta que a chave de leitura no paradigma em que trata do significante que representa o gozo para outro significante; é uma definição que auxilia a pensar o seminário 17.


Ressaltou que os discursos são vinculadores de gozo; os quatros discursos articulados: mestre, universitário, histérico e psicanalítico. São eles lugares amplificados e colocados em discursos. Cada um desses discursos formalizados por Lacan tem uma distribuição peculiar dessas letras nesses lugares e funções. Pontua que a construção vai partir do discurso do mestre que é o avesso do discurso do analista.


O amor como efeito de um discurso ao outro, no deslizar do discurso do sujeito, sendo que o discurso capitalista não opera desta forma. Eduardo solicita aos participantes retomarem alguns trechos do capítulo anterior “o mestre castrado”, onde destaca alguns pontos: o saber como lugar da verdade e a inutilidade do Édipo no destaque ao desejo da mãe. Ressaltando que mais a frente Lacan contextualiza o Édipo como secundário, subjacente ao papel do desejo da mãe. Lembrando que é tomar a importância lógica (universal) no ponto de vista do singular – o mito individual do neurótico que o leva a construção da fantasia própria a cada ser falante.


O pai todo amor – religião – sonho freudiano, porque Freud faz essa interlocução pensando no lugar do pai e do mito, onde a ênfase dada é a referência simbólica. Depois Lacan avança com a questão situando o objeto como modo de satisfação e gozo. Amor ao pai morto em consonância ao mito e proliferação dos mitos. O discurso do mestre é que esse pai é castrado desde sua origem, é a verdade desse pai; desse mestre que é S1.


No discurso histérico há questionamento possibilitando a produção de saber como causa de desejo. Alinhando à verdade como fantasia do sujeito, pois pede ao mestre a verdade sobre o objeto a (causa de desejo e mais-gozar). Os discursos não são da ordem de estrutura, mas são composições dinâmicas. O histérico questiona a verdade do mestre, verdade essa enquanto castração, sujeito dividido como causa de desejo e está articulado em haver uma movimentação tal como castrar para produzir algo como um significante.


A análise adquire sua verdade e aponta o engodo da sustentação do mestre que não considera a castração. Lacan subverte quando elucida a questão decorrente do cogito: Ali onde penso não me reconheço, não sou – é o ICS. Ali onde sou, é mais do que evidente que me perco2. Eduardo explicita que o sujeito é pensado pela linguagem. Neste o lugar da fantasia, é onde não pensa – o sujeito é pensado e falado pelo Outro ocasionando um recalcamento no discurso do mestre que mascara a divisão do sujeito. O semidizer constrange a verdade porque ele trás o enigma.


O discurso universitário onde o discurso da ciência se alicerça também vai em direção ao empuxe ao saber. Seria o S2 que vai querer saber sempre mais. Não há lugar para pergunta, um mandamento sempre mais. O significante mestre no lugar da verdade provoca esse empuxe ao mais saber. O discurso da ciência é um saber alcançado no real, na perspectiva da tecnologia; um motor, a saber mais.


Eduardo cita trecho da pg 112: pois haverá mesmo um analista?, quem pode saber? Mas teoricamente podemos postulá-lo -, é o próprio objeto a que vem no lugar do mandamento”.... “ela envereda pelos rastros do desejo de saber. O analista como motor neste trajeto que se inicia com o “diga o que lhe vier à cabeça”. O aparecimento deste discurso vai proporcionar a divisão do sujeito.


É explicada a questão do mestre com o escravo (produz mais gozar). Formulação elaborada por Lacan, podendo entender mais adiante a estrutura do sintoma neurótico, o escravo goza com o corpo e a barreira da fantasia é o gozo. O mestre exclui a fantasia, o faz totalmente cego da verdade subjetiva, do recalcamento que advêm como enigma. Um exemplo corriqueiro no consultório de um paciente: “Não sei porque repito isso...” satisfação é do Outro – relação mestre x escravo. Esforço do Lacan para pensar o funcionamento do ICS.

O discurso do analista é oferecer-se como ponto de mira para o desejo de saber, assim oferecer-se como causa de desejo. O único discurso onde o lugar do agente é ocupado pelo objeto, ou seja, no lugar do analista não há nenhuma pretensão de sujeito. Tratar o outro como sujeito é possibilitar que ele se manifeste com sua singularidade, com seu S1, produto do discurso do analista.


Eduardo cita Trecho da pg 116: pode-se falar muita besteira em torno do mito, porque ele é justamente o campo da besteirada e acrescenta O semidizer é a lei interna de toda espécie de enunciação da verdade, e o que melhor a encarna é o mito.Pontua que é o falo que tenta reduzir os estragos do desejo da mãe. No parágrafo da pg 118 O papel da mãe é o desejo da mãe. .. carreia sempre estragos.. um grande crocodilo em cuja boca vocês estão.


Finaliza sua apresentação com pontos da pg 120, em que Lacan elabora o conceito de segregação a partir da fraternidade, com a morte do pai da ordem todos podem gozar da mãe, são todos irmãos; como foi se constituindo a questão do Um.


Abre-se o espaço para discussão em que vários participantes trazem questionamentos e contribuições instigantes acerca do que foi trabalhado. Silvia Sato finaliza apresentando a data da apresentação do próximo capitulo, que contará com o psicanalista José Danilo Canesin (Associado ao Clin-a).

Natália Martinelli Cassim

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1 MILLER, J.A. Seis Paradigmas do Gozo, In: Opção Lacaniana Online, Número 7 , São Paulo, 2012.

2 LACAN, J. O seminário, livro 17: O avesso da Psicanalise.(1969/1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, pg. 108, 2016.


Ciclo Avançado – Seminário “O avesso da psicanálise”

Resenha - Aula Capítulo VIII – Do mito à estrutura

Nara Pratta

Diante de uma verdade que se propõe “toda”, de um discurso da ciência que tudo sabe e tudo responde, qual o lugar para a invenção de cada um? Em contraposição a um fechamento, conclusivo e ordenador, no que concerne uma abertura, sobretudo no campo da clínica, aconteceu a aula do dia 26/09/20 sobre o Capítulo VIII do Seminário “O avesso da psicanálise” (Lacan, 1969-70[1992]) conduzida por José Danilo C. Canesin (associado ao Clin-a).


“Para além do Complexo de Édipo”, compondo um dos capítulos que discutem essa temática, no texto “Do mito à estrutura” Lacan convoca/provoca indagações concernentes à clínica de suma importância. “Freud produziu um certo número de significantes-mestre, que recobriu com o nome de Freud”, e por uma certa devoção ao nome de Freud não se pode desvencilhar deles? (p. 136). Embora esse seja um apontamento no final do referido capítulo, esse é um ponto também para abertura do mesmo.


José Danilo inicia sua discussão propondo duas formas de leitura para o capítulo: a primeira retomando a afirmação da última frase do capítulo “Édipo e Moisés e o pai da horda”, tomar o Complexo de Édipo como um sonho de Freud (p.123); e, a segunda forma, partindo do mito e o que tem de novo no âmbito da passagem proposta “do mito à estrutura”. Assim, José Danilo nos sinaliza dois caminhos que percorrerá, iniciando pelo segundo.


Nesse sentido, José Danilo refere Ítalo Calvino (1977), no capítulo intitulado “A combinatória e o mito na arte da narrativa”, para o destaque do autor acerca do mito como a parte escondida em toda história, zona não explorada porque faltam palavras, vácuo de linguagem. José Danilo destaca a referência como um traço de um tabu, o que aproxima-se à afirmação de Lacan, no capítulo em questão, do mito como um enunciado do impossível (p.130).


José Danilo destaca que Lacan parte na aula da morte do pai no âmbito da lei e não da noção de liberdade. Isso apresenta uma confusão de interpretação de algo associado à liberação da lei (p. 125). A morte do pai como chave do gozo, do gozo do objeto supremo identificado à mãe, “é a partir da morte do pai que se edifica a interdição desse gozo como primária”. (p. 126). A morte do pai, portanto, cria a lei e não uma liberdade associada a essa, “longe de questionar o que está em jogo, a saber, a lei, ele antes a consolida” (p. 126).

“A morte do pai é a chave para o gozo” – com esse enunciado José Danilo destaca que Lacan marca que não se trata do pai morto, mas do assassinato do pai. “É aí, no mito do Édipo tal como nos é enunciado, que está a chave do gozo” (p. 126).


Retomando a primeira forma proposta para ler o presente capítulo, José Danilo destaca a afirmação de Lacan acerca do Complexo de Édipo como um sonho de Freud. Para tanto, retoma Lévi-Strauss (1958[1975]) no texto “A estrutura dos Mitos”, em sua referência a Saussure acerca da diferença entre fala e linguagem: a fala com o caráter de um tempo irreversível; já a linguagem tem um caráter reversível de tempo porque o que se sustentaria é a estrutura. Assim, a fala tem um caráter diacrônico e linguagem sincrônica. Lévi-Strauss apresenta, a partir disso, que o mito funciona como sincrônico e diacrônico. José Danilo, ao tomar essa citação, destaca o mito como característica que pode ser suprimido o tempo, e também sofrer alterações, similar à descrição do inconsciente.


José Danilo segue com a colocação de que na perspectiva de Lacan (1953[2008]), em 1953, “O Mito individual no neurótico”, o mito dá a formulação discursiva do que não pode ser transmitido na formulação da verdade, já que essa só pode se apoiar em si mesma. A fala não pode se apreender em si própria, pode apenas exprimi-la. Contudo, no referido Seminário (Lacan, 69/70[1992]) há uma mudança na perspectiva que Lacan apresenta o limite da verdade; a verdade não pode ser falada; um furo da verdade; verdade como semi-dizer.


O sonho do pai morto apresentado por Freud (1900 [1996]) em “A interpretação dos sonhos” é proposto por Lacan para evidenciar que “a equivalência se dá em termos freudianos, entre o pai morto e o gozo”; é na medida que o pai está morto que o homem não goza daquilo que tem para gozar (p.129). No sonho apresentado por Freud o sonhador encontra o seu pai recentemente falecido em vida. Marcus Vieira (texto: “Durar? O sonho do pai morto”) apresenta uma importante colaboração nesse diálogo ao elucidar que “O real do desejo do sonhador não é seu anseio de morte do pai, esta é sua demanda. É, porém, uma demanda impossível e é neste impossível que reside o real do desejo”. Nesse sentido, José Danilo destaca o saber no lugar da verdade como mito e esse, como conteúdo manifesto.


O pai morto como o gozo se apresenta como um sinal do real, o real como impossível, “aquilo que, do simbólico, se enuncia como impossível (p.130). Com isso, se enuncia para além do mito de Édipo um operador estrutural, chamado de pai real “que coloca no centro da enunciação de Freud um termo do impossível” (p.130). Nesse caminho, discutiu-se, a partir da contribuições de participantes presentes na aula, que, no campo da clínica, não se trata de se descrever a estrutura mítica, de ir em busca da escuta dessa, mas do que está além, do que não é possível de se recobrir com palavras. É nesse contexto que se expressa também a vertente do mito à estrutura, do pai morto para o pai real. “Para além do mito de Édipo, um operador, um operador estrutural, aquele chamado de pai real (...) a categoria do real (...) não na qualidade de simples escolho contra o que quebramos a cara, mas de escolho lógico daquilo que, do simbólico, se enuncia como impossível” (p. 130). O destaque para “escolho lógico do simbólico” ressalta o impossível como derivação do simbólico; quando se esbarra em um limite. Nível do real aqui como o que não cessa de não se escrever. Real a partir do simbólico.


Há contribuições de questionamentos e problematizações dos presentes na aula acerca de como o mito tenta dar conta do que não é dito, por isso, é colocado como conteúdo manifesto. E também de como o reducionismo à escuta em torno do mito não avança para o que há de furo, na dimensão do gozo, do que comporta o latente. Portanto, a dimensão do mito não sustenta a análise, indicando assim a relevância da direção do tratamento para S1 que não se liga a S2, à uma história; em direção ao que se extrai do pai real, não como aquele da “realidade” – o que o reduziria ao campo do imaginário.


José Danilo segue com o destaque acerca do enigma, enigma que se coloca no mito e a verdade não como reveladora de tirar as vendas dos olhos, mas de tiras nos olhos “não é neste objeto mesmo que vemos Édipo reduzido não a sofrer a castração, mas antes, eu diria, a ser a própria castração?” (p. 127). José Danilo enfatiza, nesse ponto, que o que aparece do pai real como operador não é o pai como castrador, assim como o pai da horda, mas como privador.


“O pai, o pai real, nada mais é que o agente da castração” (p.131). José Danilo continua o capítulo nesse ponto destacando a castração como um passo além, além do Édipo como interdito, é uma castração que aponta para o real. O agente aqui é ressaltado como o que faz uma operação possível de se fazer o discurso; não poderia haver um ato em um campo não articulado. A questão do ato incide no impossível, ou seja, não liga algo de um sentido, mas toca no ponto do impossível, permitindo assim, sair da cena mítica.


Na finalização da aula, José Danilo apresenta a última parte final do texto: “a ideia de colocar o pai onipotente no princípio do desejo é suficientemente refutada pelo fato de que foi o desejo da histérica que Freud extraiu seus significantes-mestres (p. 135). “A partir do momento em que vocês fazem a pergunta O que quer uma mulher?, situam a pergunta no nível do desejo” (p.136). José Danilo apresenta nesse ponto a ênfase de Lacan para a singularidade, “uma mulher” e não “a mulher”; ressaltando a inexistência do universal. Freud parte da histérica, contudo, isso não especifica um sexo, qualquer um que se pergunte sobre o desejo, se histericiza e faz o significante-mestre sair (p.136).


A aula foi finalizada com o anúncio do próximo encontro, no dia 31/10 com o psicanalista Emmanuel Melo.

Algumas referências citadas durante o encontro:

CALVINO, Italo (1977). A combinatória e o mito na arte da narrativa. In: LUCCIONI, G. et. al. Atualidade do mito. São Paulo: Duas Cidades.

FREUD, Sigmund. (1900 [1996]). A interpretação dos sonhos (segunda parte) e sobre os sonhos. In Obras Completas de Sigmund Freud Edição Standard Brasileira. Vol. V. Rio de Janeiro: Imago Editora.

LACAN, Jacques (1953[2008]). O mito individual do neurótico, ou, A poesia e verdade na neurose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

________. (1969-70 [1992]). O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar

LÉVI-STRAUSS, Claude (1958[1975]). A estrutura dos Mitos. In: Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

Links:

https://youtu.be/H1bdEvwzp08

https://www.youtube.com/watch?v=b-6bllVm7-E

https://congresoamp2020.com/pt/el-tema/papers/01_paRspers_trad.pdf




Ciclo Avançado – Seminário “O Avesso da Psicanálise”

Resenha - Aula IX – A Feroz Ignorância de YAHVÉ


No dia 31/11/20, Emmanuel Mello (associado ao Clin-a) apresentou a Aula IX do Seminário 17 em uma generosa explanação aos colegas do Clin-a na cidade de Ribeirão Preto. Encerrando aqui a subdivisão do Para Além do Complexo do Édipo, subdivisão esta feita por Jacques-Alain. Segue a resenha do que foi elaborado a partir de sua apresentação.


Emmanuel inicia sua explanação dizendo de que esta lição faz uma amarração com as lições anteriores, e que também neste capítulo há uma atualidade com a ideia de uma voracidade atual da ignorância, a partir de um retorno e um rechaço em nome de YAVHÉ, pensado a partir de uma lógica onde o nome de Deus é tomado compulsivamente em vão.


Para Lacan, o modo como Freud toma o Pai da religião é uma tentativa de valorização do pai, numa crença de que o pai continha os caminhos civilizatórios. Na fala de Emmanuel, Lacan acusa Freud de não ter avançado na crítica a Religião.


Emmanuel ressalta aqui que nessa aula, Lacan convida o Professor Caquot para explanar a pesquisa que Freud realizou sobre o livro de Sellin. Para Lacan uma leitura enigmática da figura de Moises tanto feita por Sellin quanto para Freud. Lacan toma o trabalho de Sellin através do que ele trabalha do escrito. O que interessa a Lacan nesse trabalho é também os indícios de uma verdade acessível aos inscritos, na letra.


Para Lacan todo o apoio dessa pesquisa de Sellin está no povo judeu, estes que tem uma relação muito peculiar com o escrito. Uma relação de escrito e dito – letra e fala.e é nesse intervalo que Lacan nos leva na direção de se encontrar o falsum (falso, contraditório). O falsum relativo a interpretação.


Lacan nos diz que a interpretação é um jogo que bem jogado não permite o conflito. Jogar com a falha da palavra do discurso é ai que se pode fazer a verdade aparecer. Lacan parece fazer aqui uma diferença entre saber e o lugar que o analista ocupa, lugar de objeto a.


Para Emmanuel a Posição do Analista parece não estar solidificada, arraigada mas sim em falsum, a operação do analista é desse lugar, um lugar solto e não preso.


Fernando Prota entra na conversa e diferencia o não saber e o relativismo, no furo do saber o que parece é a verdade do sujeito.


Emmanuel traz agora o pai real, para ele um pai ignorante, o qual esse tem um saber sobre o gozo e que exclui a diferença. Para Lacan a psicanálise não deve cair aí, nessa pantomima, a psicanálise tem uma operação onde o analista tem que estar por dentro que é também ficar por fora, ocupar o lugar de objeto a, lugar de que não se sabe. O analista não sabe de que se fala, o não saber é uma posição frente a uma interpretação que pode produzir uma fenda ou oferecer um significante em uma situação de muita angústia frente a um sem sentido. O não saber, um saber negativizado, é um saber que não se saberá, o não saber é uma insistência permanente em se saber do inconsciente.


O lugar de não saber, um vazio operador, e o analista ai nesse lugar que opera esse vazio operador.


Emannuel termina trazendo algumas questões a partir do que ele acredita ser uma passagem onde o monoteísmo introduz o que a psicanálise chama de norma fálica. Como uma norma civilizatória? As minorias são as maiorias? A muito tempo o pai não tem mais esse lugar de provedor, que efeito isso teria para a norma fálica?


Questões que nos fará pensar até o próximo encontro que será realizado em novembro com a fala de Fabiola Ramon nos falando da aula 10.


Ciclo Avançado

O Avesso da Psicanálise - Seminário 17


No dia 21/11/2020 aconteceu a última reunião do ano do Ciclo Avançado de Ribeirão Preto. Fabíola Ramon (membro da EBP/AMP e associada ao Clin-a) apresentou o capítulo X do seminário 17: “Conversa nos Degraus do Panteão”. Seguindo a lógica do capítulo e considerando o fechamento do ano, propôs que o encontro tomasse um formato mais aberto à conversa e, a partir das elaborações por ela trazidas, a conversa realmente se deu.


Para a apresentação, usou como referência o texto de Laurent “Lacan e os discursos”, assim como o texto por ela apresentado na jornada Subversões, publicado no boletim 2. Citou também o livro “O Avesso da Pele”.


O capítulo X se passa literalmente nos degraus do Panteão, pois a Faculdade de Direito se encontrava fechada. Fabíola destaca que, enquanto o Panteão original da Grécia é um monumento de culto aos Deuses, o Panteão da França faz culto ao humano, ao iluminismo. Essa cena, em que Lacan se reúne na rua com os estudantes e pergunta o que eles querem saber dele, faz lembrar de uma fala: “vocês que vão às ruas e acham que estão revolucionando o mundo não fazem mais do que pedir um mestre”. Para Lacan, a ideia de destituição do mestre é furada.


Fabíola faz uma retomada de alguns conceitos trabalhados anteriormente, já que o capítulo se encontra no início da última escanção do Seminário 17, chamada de “O Avesso da Vida Contemporânea”. Esse nome faz uma referência crítica à obra de Balzac “A História da Vida Contemporânea”, pois, o que no discurso do mestre é historicizado, colocado em série, Lacan inverte: a história é uma ficção. Para Laurent, nesse seminário Lacan está se perguntando como o gozo circula e se articula no mundo e tenta fazer uma leitura da civilização através dos discursos e seus giros. Além disso, problematiza um mundo ordenado pelo saber da ciência e se pergunta sobre o estatuto da verdade no contemporâneo.


É importante observar que o nosso contemporâneo não é o mesmo de Lacan. Nesse sentido, Silvia se pergunta o que fazer na clínica, já que o peso da ficção mudou. Qual o lugar da ficção hoje? Fabíola pensa que os discursos tinham mais giros, que a assunção do discurso capitalista enquanto principal discurso esvaziou os demais. A mudança que vivemos hoje no estatuto da verdade se apresenta de forma bem mais radical e desnudada. Além disso, Cristiana comenta que essas posições congeladas produzem faces cada vez mais endurecidas, destacando o neoliberalismo. Com a proposta de que o mercado se auto-regule, sem um mestre, o liberalismo rompeu com as tradições da organização financeira e da relação de poder. Mas qual a perspectiva?


Passou-se a trabalhar com o exemplo das fake news e com a observação de como o cinismo impera, virando também um elemento do discurso político. Pensar na verdade enquanto uma semi-verdade (a verdade castrada da psicanálise) é bem diferente de pensar que a verdade não existe, que é tudo mentira. Aqui estão o relativismo e o cinismo. Cristiana aponta que o que surge em consequência tem uma potência de discurso de verdade absoluta, sem dialetização. Seria essa verdade bruta uma verdade de gozo? Para Eduardo, a dureza está no enxame de fake news: o efeito é do conjunto (muito mais difícil de combater). Ligado ao excesso de gozo, o enxame vem da produção incessante do capitalismo. Como bem nomeou Emmanuel, uma “cracolândia narrativa”.


Podemos pensar que o próprio discurso da ciência acabou engendrando o negacionismo científico? Produzido pelo esvaziamento da relação com o saber, que saber o discurso negacionista apresenta? Não seria um saber de conteúdo, mas um saber do fato de que todos estão mais interessados em gozar do que na verdade. A verdade aqui não tem qualquer referência. O mundo contemporâneo se organiza em torno do gozo, e a clínica vai mais para o lado da psicose.


Fabíola entra no comentário sobre a dialética hegeliana. Na lógica do senhor e do escravo, o saber está do lado do escravo, que trabalha e entrega algo para o outro (perde em gozo). Mas a filosofia retira o saber do escravo e abre a possibilidade pro sujeito da ciência. Na evolução do escravo para o proletariado, o saber acaba passando para o lado do mestre. Assim, o proletário, além de ser alguém explorado, foi despojado de seu saber. Em um mundo em que a ciência está objetivada, com a presença de gadgets, o saber-fazer no nivel do manual ainda tem peso para ser um fator subversivo?


Ainda na dialética, mas mudando a perspectiva, Fabíola propõe pensar sobre o “escravo em mim”, que se submete aos S1 e que tem uma sabedoria de existência. Podemos considerar o sintoma um saber-fazer do escravo em mim? Fernando aponta para a separação entre saber e gozo que esse pensamento traz: o escravo possui o saber, mas ele não se apropria do gozo produzido - este vai para o senhor. Se não estamos apropriados do desejo, esse gozo vai para o outro. Mas podemos nos tornar mestres do nosso gozo? É o que o discurso capitalista traz através da cola ao objeto.


E o self-made man, patrão de si mesmo, teria ele um traço subversivo? Fernando aponta que a nomenclatura “fazer a partir de si próprio” comporta uma ambiguidade: que si próprio é esse? Podemos pensar no Lacan enquanto um self-made man se considerarmos sua história de construção do próprio ensino. Mas é um “si próprio” centrado no desejo e que comporta algo da alteridade. Já o "si próprio" do capitalismo parece muito mais centrado no eu do ego, um eu alienado aos valores de sucesso: aqui não há liberdade.


Voltando ao seminário, frente a uma pergunta de um aluno sobre Kierkegaard (filósofo que trabalhou a angústia), Lacan afirma que ele não vem do nada, que parte da filosofia. Mas o que diferencia seu discurso do da ciência é que ele comporta o sem-sentido e está calcado na experiência clínica. Sua causa não é puramente elucubrar sobre a angústia, mas olhar o que dela se apresenta na clínica. Apesar de ser acusado de não dar importância aos afetos, para Lacan, a angústia é o afeto central em torno do qual tudo se ordena. Os próprios discursos são modos de tentar tratar o gozo.


Passamos a discutir o saber-fazer na clínica e o perigo de confundi-lo com algo do intuitivo. Em uma análise, passa-se pela ficção e pela fantasia, esvaziando-as. O que está em jogo é a alteridade do gozo: encontra-se algo de si que é alter e o limite do saber sobre isso. Onde entra o ato analítico? Ele não está no lugar do saber, mas pressupõe uma passagem por isso. Despoja-se algo do saber no momento do ato, que não se aprende no manual.


Maria Célia cita o texto de Miller “Uma Fantasia” para apontar que, com a subida do objeto a ao zênite, o discurso da civilização deixou de ser o discurso do mestre. Assim, o discurso analítico não é mais seu avesso, mas tem uma relação da ordem da convergência. No discurso hipermoderno, o S1 tem um valor contábil e os elementos se encontram dispersos. Só no discurso analítico é que eles se ordenam enquanto discurso.


Fabíola fecha a discussão falando sobre o caso do Carrefour. Destaca o acontecimento de alguns meses atrás em que um funcionário morreu no trabalho e teve o corpo tampado com guarda-chuvas para evitar o fechamento da loja. Nem mesmo a morte é capaz de parar o capitalismo. Time is money. Comenta o quanto essa cena demonstra o estatuto do sujeito no discurso contemporâneo: um estatuto de resto, de dejeto. Para onde vai o valor de vida?


Seguimos com a próxima reunião provavelmente em março.

Caroline Minchillo

Retomando o trabalho que vem ocorrendo no Ciclo Avançado em Ribeirão Preto que tem como orientador o Seminário 17, Rodrigo Lyra nos trouxe uma provocação: pensar o psicanalista, a segregação e a Escola. Para isso nos propôs uma tese: se em 1969-1970, ano do seminário, o que imperava era o Discurso do Mestre, que discurso imperaria em 2021? Cabe pontuar que essa atividade foi uma atividade de abertura cuja intenção foi nos provocar ao trabalho que já vem ocorrendo em torno do Seminário 17, O avesso da psicanálise.


Se antes, a psicanálise questionava o idealismo que orientava as manifestações de maio de 68, o que fez Lacan afirmar que o movimento revolucionário buscava apenas a substituição de um mestre por outro, hoje nos deparamos com um momento histórico marcado pela ausência de utopias.


Rodrigo Lyra apontou que, nesse seminário, Lacan se interrogou sobre a existência de algum laço social que possa ser de fato, libertário e propôs que a subversão ocorreria através da escrita e que é pela escrita que a psicanálise poderia se pensar enquanto política.


E essa tem sido a questão trabalhada por Rodrigo Lyra. Qual é a posição do psicanalista da Escola frente aos atuais desafios produzidos pelos discursos políticos? Para responder a isso, ele retoma o conceito de segregação, apontando que ele é constituinte da identidade, o que nos coloca diante de um impasse.


Retomando o escrito de Laurent, Política do passe e Identificação dessegregativa, Rodrigo Lyra nos colocou que a saída é pensar em uma clínica que vise a uma identificação dessegregativa e vê na Escola, pensada não enquanto instituição e sim enquanto laboratório, uma via de construção dessa ‘não segregação’. Isso se dá a medida que um trabalhador da Escola, incita ao trabalho um outro trabalhador da Escola. A política pode então ser pensada a partir dessa ética. A Escola e seu funcionamento poderia produzir um real na cultura a partir de sua ação no mundo.


A partir disso, incluo algumas questões. Se estamos todos submetidos a essa lógica neoliberal, existe em nossa constituição a marca dessa lógica. Somos produtos e produtores dela. Assim, incluímos no sujeito a marca dessa alienação e também a possibilidade de rompimento, uma separação possível que precisa ser acompanhada por uma saída que inclua a não segregação. Para isso, faz-se necessário uma distinção conceitual muito precisa que nos forneceria os fundamentos que irão direcionar a condução clínica rumo a uma ‘identificação não segregativa’.


E nessa perspectiva penso o lugar dos institutos. Seria o instituto um espaço privilegiado para a construção desses fundamentos, já que este se coloca como um espaço de formação teórica, mas não uma formação qualquer, posto que inclui na transmissão uma dimensão ética que orienta a formação do analista? Poderia ser a construção desse saber, uma orientação política para o ensino nos institutos?


Por fim, apresento uma última inquietação: a Escola pode produzir um saber sobre a não segregação se não incluir a dimensão capitalista que a produz e a mantém, prescindindo das teorias críticas que apontam para a existência de uma diferença radical entre as classes sociais?


Sabrina Marioto

Associada ao Clin-a.


No dia 17/04/2021 foi dada continuidade aos trabalhos referentes ao seminário 17 de Lacan, “O avesso da psicanálise”. Cristiana Gallo trouxe suas pontuações e reflexões a respeito do capítulo “Os sulcos da Aletosfera”, parte de “O avesso da vida contemporânea”. Ao final tivemos contribuições de vários participantes da aula, finalizando com uma discussão interessantíssima a respeito da psicanálise e sua potência que parte da impotência.


Inicialmente, Cristiana localiza que tem estado às voltas com a questão da formação do analista, pensando sobre os espaços da Escola e do Instituto. O que se transmite?


O seminário 17 é um seminário sobre o gozo, com o desafio então de fazer passar a escrita do Real. Cristiana aponta que o que está em jogo neste momento do ensino de Lacan é o que Jacques-Alain Miller trabalha como gozo discursivo e nos coloca que estamos diante de um “reviramento” - todos os conceitos trabalhados até então serão revisitados e tomarão outro estatuto. O que se veicula na cadeia significante, afinal, é o gozo.

Cristiana nomeia que o fio que utilizará para a leitura desse capítulo, da aula trabalhada neste dia, é a do “fio da vida”.

Iniciando os trabalhos propriamente do capítulo XI, Lacan retoma um questionamento a que foi submetido, se estaria repetindo Gorgias, filósofo grego, ao que Lacan aponta que o que concerne à psicanálise é o afeto. O afeto é o fio a ser seguido em sua articulação feita pelo discurso do analista, estando o analista na posição de objeto causa.


Lacan fala sobre a escrita (o quadro negro) como forma de capturar algo do Real. Fala sobre a posição do objeto nos discursos - do analista ele está no lugar de agente, enquanto que no do mestre ele é produto. O discurso do analista é o avesso do discurso do mestre.


Cristiana aponta para uma inquietação, a necessidade de se levar a psicanálise até a política. A bússola para as discussões deve ser o gozo - enquanto vivência mortificante ou vivificante. Fala sobre a escolha de Lacan do termo “Escola” para nomear sua escola; em tempos antigos o termo era utilizado para localizar um “refúgio”, não enquanto lugar em que se esconde (um abrigo, lugar de isolamento), mas como base de operações, sua escola então seria uma base de operação contra o mal estar na civilização.


Seguindo para a Parte 1, Cristiana destaca a questão do objeto como efeito de um discurso, o objeto se manifesta como falta a ser. Efeito de Ser, seu primeiro afeto só aparece como objeto causa de desejo e é lá que o analista se coloca. A prática analítica se inicia pelo avesso, pelo discurso do mestre. Discurso do inconsciente como discurso do mestre, Lacan utiliza a homofonia em francês dos termos “mestre” e “me ser” (maître/m’être). O ser e a dimensão do mestre. Esse é o campo que chegamos ao discurso do analista, que irá de um discurso a outro.


Cristiana destaca o texto “Radiofonia”, que junto com o seminário 17 será referência fundamental para o giro que se dá nesse momento do ensino de Lacan, é o momento de virada de um gozo ao outro. Significante então é o que divide, representa o sujeito, movimenta-se para o significante veicula gozo e permite a própria existência. Estamos no paradigma do gozo discursivo (referência aos “seis paradigmas do gozo”, de JAM). Ser de desejo. Falta a ser.


Neste ponto, Cristiana compartilha o que foi trabalhado na aula da New Lacanian School (NLS), sobre este capítulo do seminário 17 - o estabelecimento do significante mestre como constituição do sujeito, o que se dá não em termos históricos, mas sim em estruturais. Significante mestre é o significante reduzido à identificação consigo mesmo - “sou o que sou”, estando associado à relação particular com o saber - e o repúdio feroz a qualquer saber sobre o sexual (“a feroz ignorância de Yahvé”).


É nesse contexto que Lacan aborda pela primeira vez a questão da não relação sexual.


Chegamos à análise com certa relação com o saber, um discurso que nada sabe sobre o gozo. Partimos do ser marcado como um, efeito da linguagem e do primeiro afeto. “Sou um” = "estou marcado como um” - surgimento do traço unário (que nunca está só).


Seguindo para a parte 2 do capítulo, Cristiana marca que Lacan faz uso da matemática para demonstrar a questão da repetição. Ressalta ainda que Lacan não está em busca da origem da linguagem, mas tal origem se mostra nos efeitos, o efeito é retroativo. “Sou um” resulta do que o causa - o afeto. Efeito da repetição do um é o objeto a. O que se repete é a própria ordem, e o que resulta é o que o causa, ao mesmo tempo é causa e efeito.

Nesse momento tivemos a colocação de Silvia Sato, pontuando que o objeto a estaria do lado do feminino, como sendo ligado ao gozo, não apenas ligado ao desejo. Nathália Cassin questiona se o traço unário se aproxima do S1. Cristiana aponta para algo que afetou o ser antes de ser. O que está em questão são os efeitos, algo que se repete. A ordem simbólica é originária, mas não é essa a questão, a questão é dos efeitos pelo que se veicula no discurso.


Eduardo Benedito coloca sobre a extração do objeto na via do Um, como algo que se repete, o efeito que isso causa no corpo. Coloca que antes a visão era de que “a palavra mata a coisa” e agora o que se vê é o efeito que causa no corpo - a virada da vida, aludindo ao fio condutor proposto por Cristiana no início do encontro. A questão do um é para além do significante, apontará para o Um e o gozo, que vai ser trabalhado no seminário 20.


Cristiana aponta que é preciosa essa passagem das matemáticas para representar essa questão. Sobre a retradução que acontece nesse momento. Afinal, todos os seminários se tratam do gozo. Em termos de “dar um tratamento”, na via de “dar uma saída”, que leva em conta a vida. Neste momento, do gozo discursivo, estamos diante da pura e simples repetição do gozo. Suplementação de gozo, não mais perda de gozo.

Chegando à última parte do capítulo XI, Cristiana compartilha mais reflexões da NLS, Lacan lança mão de novas formas de nomear. Nos coloca em outra posição na articulação dos discursos. Aliança do discurso do mestre com o discurso da ciência no discurso capitalista. Lança os termos “aletosfera” e “latusa”.


Sobre a Aletosfera, se refere ao espaço em que operamos com os produtos da ciência. O mundo povoado de ondas, se entrecruzando. Em todo o trajeto o que está presente é a voz.


O que assusta é a vida, e não a morte. Nada querer saber sobre a finitude.


O que resta é a fenomenologia dos sulcos. A natureza se tornou desconhecida novamente, há um novo mal estar. Como sobreviver ao real - desconhecido? Há que se implicar uma relação diferente entre o desejo e o gozo.


Nova bússola: O Real enquanto impossível. Cristiana coloca a discussão feita por JAM em “Uma fantasia”, o que está em jogo é a impossibilidade, a impotência.


Após a fala de Cristiana, seguiram-se vários comentários muito interessantes, José Danilo coloca sobre a Aletosfera, movimentos antivacina e anticientíficos, e questiona - não se tratariam do mesmo campo? Ilustra com o exemplo de uma notícia que a ciência estaria desenvolvendo uma possibilidade de gestação fora do corpo - a ciência nada quer saber da impossibilidade. Inclusive o fato de tal notícia poder ser uma “fake news” também exemplifica esse campo - o excesso como resto do efeito da ciência.


Seguiu-se uma discussão sobre o impossível e o fracasso - fracassar cada vez mais e cada vez melhor (Ram Mandil na revista “Curinga”). A estrutura de cada discurso exige uma impotência. É algo pela via da impotência que se dá o ato analítico, há uma conjugação entre o impossível e a impotência – referência a Radiofonia, uma impotência que permite que o sujeito se faça agente no final.


Felipe contrapõe ciência e psicanálise, sendo que a ciência atua a impotência pela via de uma possibilidade (tornar o impossível possível); a psicanálise acolhe o impossível enquanto impossível. Destaca o livro o inconsciente é a política, de Marie-Hélène Brousse - importância da psicanálise interferir na política, a própria existência da psicanálise depende desta interferência.


Eduardo reflete sobre levar o sujeito até o final - da impotência até poder lidar com a questão da impossibilidade. Necessário e possível - masculino/ impossível e contigência - feminino. Levar o sujeito a se confrontar com a impotência para poder criar algo para lidar com a impossibilidade. Saída na via do feminino. Gozo fora da vertente fálica. Eduardo fala sobre a latusa - brinca com o conceito, pede que Cristiana fale mais.

Cristiana fala da necessidade de levar a experiência da Escola para a política. Ressalta a experiência do AE, que se sustenta a cada vez, cada vez lidar com esse resto, com o impossível. Fala ainda sobre a questão da Latusa, termo postulado por Lacan no final do capítulo e que será trabalhado depois. Posição da Latusa e do Analista como impossíveis. Psicanálise como uma das latusas - aquilo que é ofertado ao sujeito para que ele possa operar com os “impossíveis” em jogo. Não suprimir - o nada querer saber. Operar com o impossível - sair da dimensão da impotência - experiência de análise.


“Acuar o impossível até seu último reduto” - Não é a eliminação.


Cristiana ressalta a fala de Felipe - a ciência nada quer saber da impotência - o que a ciência não sabe ela ainda vai saber. Fala sobre a questão da fertilidade - a ciência sempre propõe um novo caminho - o “fizemos tudo o que havia pra fazer” não existe, na “geração de uma nova vida”. E coloca a questão do suicídio então, inserir a finitude.


Maria Célia marca a questão do objeto a como mais de gozo - ciência enquanto excesso. Tentativa de que a falta não exista. Sujeito se deparar com a morte.


Natalia Cassin - marca o “atuar o impossível no seu último reduto”. Colocando em questão o conceito da iteração. Saber-fazer uso e não a troca.


Cristiana elabora sobre os dois pontos - Repetição e Iteração. Repetição - cadeia significante. Iteração - da dimensão do gozo, o que “itera” - se apresenta a cada vez, na via de um gozo. Questão do gozo ilimitado se fazendo presente na clínica (aponta para uma discussão que tem sido realizada no campo do CEREDA).

Por fim, Cristiana aponta para a articulação final no seminário da NLS - discussão em torno das latusas, dos sulcos - não podemos dizer que a psicanálise produzirá uma solução, mas sim produzir uma saída, um a um, produzir um artefato, algo que não existe na natureza - nos produzirmos em artefato. O que são restos, se tornam operadores. O que vem a ressoar, a cada um, a partir dos relatos de passes. Vêm discutindo a questão da “liberdade”, ao final de análise, um espaço em que nada está escrito - final da análise - queda de tudo o que está escrito, saída com o resto que se constrói.

Silvia Sato finaliza trazendo que objeto a está na dimensão do feminino, vazio como possibilidade de uma nova criação.


O próximo encontro será em 29/05/2021.


Simone Roje Sanches



Ciclo Avançado O avesso da psicanálise – Seminário livro 17 de Lacan

A impotência da verdade

capítulo XII


“Se somos forçados a flanar tão longamente pelos corredores, pelos labirintos da verdade , é justamente porque há algo que nos impede de chegar.”.[1]


Com essa citação Lacan localiza como o amor à verdade, que funda a relação analítica, nos impede de chegar “à impossibilidade do que se mantém como real”.

Felipe Ortolani foi quem trabalhou o capítulo no encontro do dia 29 de maio, onde Lacan fala da “impotência da verdade” ironizando os universitários e considerando as experiências de sua época.

É com “um discurso sem palavras” através do que captura o que escapa e o que não pode se escrever que propõe os 4 discursos, entre eles o discurso analítico fundado no amor à verdade. Contudo Lacan afirma que não seria o amor que deve inspirar a verdade, já que é ela que faz surgir o significante da morte. O que o leva a localizar a análise entre as três profissões impossíveis, junto com governar e educar, de modo que a verdade de uma análise estaria ligada ao ato analítico.

Segundo Felipe nos fala, um discurso seria onde as palavras se alojam, as palavras funcionam onde o real fica excluído, como impossível.

Fernando enfatiza nesse ponto, como Lacan estaria estruturalista nesse momento, na medida em que propõe um discurso que existiria antes mesmo de se fazer uso dele, ou seja, uma estrutura prévia ao gozo da palavra. Nessa conversa, Diva enfatiza o sem sentido que o sentido anti-horário do giro dos discursos indica, com os quais não se trata de significar, mas de autorizar as palavras e isso seria um pouco mais do que escrevê-las, como diz Lacan.

Na sequência Felipe traz que ao falar sobre o animal doméstico Lacan faz menção à palavra que viria no lugar da carniça, como o significante que veicula “a carniça”. José Danilo menciona a relação com o corpo, onde o significante diria sobre o gozo, de modo que a carniça seria o vivo aparelhado pelo significante. Teríamos então cinco elementos no discurso, sendo o gozo o quinto elemento, por onde a carniça passaria.

Com Hegel, Felipe segue dizendo que Lacan fala sobre a ascensão do senhor, na medida em que é o escravo quem daria a verdade ao senhor, já que ela não pode ser lida diretamente. Considerar que é o escravo quem detém um saber e que daria a ascensão do senhor, implica em dizer que não se trata do progresso do saber. Haveria um engodo de Hegel, já que não levava ao progresso. E questiona o amor à verdade reveladora como um saber em progresso, sendo que a verdade faz surgir o significante da morte. Assim como considerar que o que resta passa a agente, não se trataria de um progresso e sim, o oposto do pensamento de Hegel.

Assim, com os discursos Lacan ressalta que o agente faz agir o Outro e dentro deles interessa extrair a relação da verdade com o real, com o impossível. Nessa relação a impotência entra como meio para se dizer da impossibilidade do real.

Felipe propõe ler a articulação entre o agente, a produção e a verdade das seguintes formas:

É impossível o mestre (Agente) ter uma relação de produção com a verdade porque a impotência lhe protege disso.

DU – É impossível o saber (S2) produzir um sujeito pensante que se perceba como senhor do saber. DM – É impossivel o Senhor (S1) produzir um mais de gozar (objeto a) que um sujeito pensante (S1) saiba o que fazer com ele.

DH – É impossivel o dilaceramento sintomático ($) da histérica pela produção de um saber (S1) sobre o que ela deseja (objeto a)

DA – É impossivel ser o agente causa de desejo produzindo um discurso do mestre com um outro estilo (S2).

Nessa articulação o campo do trabalho fica de fora, como inominável, sendo que é sobre essa interdição que se funda sua estrutura, levantando a questão sobre o que cabe ao gozo em cada discurso?

Natália e Cristiana retomam do capítulo anterior que os discursos servem como defesa em relação ao real do gozo e que saber não é poder, mas um índice da impotência, sendo um limite do real a bússola da impossibilidade.

Ao final Felipe enfatizou o estilo capitalista do discurso do mestre, onde haveria uma tentativa de esvaziar a impotência, sustentando um S1 intocável. O que levou a uma discussão a respeito da ilusão de que seria possível não perder, comentado por Fernando e Beth ou num retorno a Marx, considerando que a troca feita seria da vida pelo capital, que foi trazido pela Sabrina, e favorecendo a segregação com a lógica do mercado comum, como Felipe disse citando Marie-Hélène Brousse em seu texto sobre o Inconsciente é a política.

Com essa discussão se perguntou sobre o lugar da psicanálise nesse contexto, sobre como abrir o interesse pela verdade do inconsciente e depois incidir uma falta?

Assim finalizamos o penúltimo capítulo do Seminário, com o encerramento no dia 25 de junho com O poder dos impossíveis.


Silvia Sato

atual coordenadora do Clin-a em Ribeirão Preto



[1] Ed. brasileira de 1992, p.165

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