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Uma clínica entrevarios: a invenção dos pequenos grupos e seus efeitos

June 5, 2019

Janaina Veríssimo, Mirmila Musse, Paula Catunda, Rejane Tito, Tissiane Gushiken da Silva

 

A Clínica do Clin-a, que existe desde 2003, iniciou seu atendimento através de oficinas, com a prática entrevarios. Atendimento realizado em grupo e com vários praticantes, além de alguns poucos alunos. Pretendia-se produzir um encontro com a psicanálise, e uma transferência com a instituição, ofertando um espaço para que cada paciente formulasse nas oficinas um questionamento sobre si e, a posteriori, ser encaminhado para um atendimento individual. Como muitas pessoas participavam desta clínica, esta etapa inicial exigia um trabalho que podemos pensar como extra e constante de reuniões, discussões e supervisões para reflexão sobre os casos. Ou seja, uma verdadeira prática entrevários.

Alexandre Stevens[1] (2015) comenta sobre os 4 pontos que auxiliaram na criação do Courtil, uma instituição com base na psicanálise entrevários: desespecialização, formação, invenção e transmissão.

O primeiro eixo, segundo ele, caracterizado pela desespecialização, garante uma não-especialização do sujeito, possibilitando que o paciente não seja marcado apenas pelo significante do seu sintoma, como quer por exemplo, o discurso da ciência, que, ao nomear apenas o sintoma, aliena o sujeito ao significante de seu diagnóstico. Pelo contrário, a desespecialização pode garantir que o sujeito construa em seu tratamento novos saberes sobre si mesmo e sobre sua própria história. Além disso, o funcionamento da clínica entrevários, a partir deste eixo, propõe um trabalho construído a partir da relação transferencial de cada profissional com o caso, invertendo a lógica da especialização de cada profissional. Ou seja, fura assim a instituição, pois constrói o caso que atravessa os especialistas a partir de sua relação transferencial, e não ao contrário. 

O segundo ponto, a formação, relacionando a formação teórica articulada necessariamente com a analise pessoal e a supervisão. A política da psicanálise como orientadora da instituição entrevários, norteia a estratégia e a tática de seus profissionais, a partir do desejo com a formação de cada um[2].

Em relação a invenção, o profissional sustenta as invenções do paciente que servem como ancoragem da construção de seu ser. O autor constrói este terceiro eixo a partir de “crianças difíceis”, muitos psicóticos, e de suas necessidades de criarem e inventarem pontos de basta, uma tentativa de substituir a função paterna que não operou. Neste sentido, o profissional de uma clínica entrevários sustenta esta invenção, dizendo sim a esta construção singular.

Quanto à transmissão relaciona a importância da reunião clínica, momento em que cada caso é pensado e apresentado entrevários.

Esta primeira clínica do Seminário Clínico passou por mudanças, possibilitando novas invenções que continuam em andamento. O que permanece hoje em dia em relação à proposta inicial em relação à clínica entrevarios? O que ganhamos e apreendemos com isto?

A clínica do Clin-a tem uma dupla responsabilidade. Primeiro, em relação ao pacientes atendidos pela instituição e segundo, em relação aos praticantes da clínica, acompanhando de perto a sua prática clínica no Instituto.

Entretanto, diferente do primeiro momento em 2003, em que os atendimentos eram em grupo, agora são individuais. As reuniões clínicas, fundamentais para o estudo clínico são garantidas como efeito de formação. A apresentação do caso clínico atendido por um praticante é acompanhado do comentário sobre o caso, realizado por outro participante. Uma terceira pessoa traz uma contribuição teórica sobre o tema que norteou os atendimentos e a construção do caso. Neste momento há também a possibilidade da palavra circular de forma inventiva, visto que a apresentação do caso pode ser composta por praticantes de pequenos grupos diferentes, somando aí algo que não foi discutido previamente.

Em seu Ato de Fundação, Lacan já advertia que “O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho”[3]. Partimos, portanto, desta premissa para pensarmos a fecundidade do dispositivo dos “pequenos grupos” na reformulação do Seminário Clínico do Clin-a. O trabalho de formação, como um dos pilares da clínica é realizado assim entrevários, pois além de possibilitar que cada um trabalhe individualmente conforme sua singularidade transferencial com a psicanálise garante ainda, num segundo momento, uma discussão com todos do grupo, fazendo circular a palavra.

Este “pequeno grupo” é composto por duas coordenadoras, duas praticantes e, a princípio, uma participante que logo tornou-se praticante, realizando atendimentos. O trabalho foi se revelando, dia após dia, mais produtivo, um trabalho que dava gosto. O motor de cada encontro e a lógica de trabalho sustentava-se pela discussão dos casos clínicos, articulada com a teoria e, não menos, com as análises pessoais e seus efeitos de formação.

Valorizamos a discussão nos grupos pequenos, pois este modelo pode ser um tratamento a inibição dos participantes em se colocarem, a partir da apresentação do caso, nas reuniões clínicas. A orientação do trabalho foi certamente a “construção do caso clínico”. A discussão prévia dos casos a serem apresentados na reunião do “grande grupo” permitiu desdobramentos teóricos e clínicos em torno do tema, viabilizando a escrita e dando algum tratamento à inibição e à angústia.

Estamos nos referindo, portanto, há dois momentos de transmissão: um primeiro, de discussão da construção do caso a partir do atendimento e da supervisão articulado com a teoria e transmitido neste grupo menor, e um segundo, de apresentação do caso na reunião clínica maior. Trata-se, portanto, de uma experiência que consente com a circulação da palavra e a invenção possível de cada um na aventura singular de seu percurso. A estrutura desse grupo menor pôde, inclusive, ser aproximada, em diversos momentos, da estrutura cartelizante.

Destacamos ainda, o papel dos coordenadores, ao se aproximarem do lugar do mais-um, na contramão do discurso do mestre: “o mais-um tem a função específica de zelar pelo andamento do cartel, de modo a favorecer a elaboração coletiva e ao mesmo tempo manter viva e destacada a questão de cada um” [4]. O coordenador que opera desse lugar, permite o vivo da palavra e da clínica, jamais desconsiderando que, para além do coletivo, há a relação solitária de cada com a causa analítica.

Ainda sobre este tratamento encontrado para a inibição dos participantes na apresentação do caso na reunião clínica, vale ressaltar a citação de Di Ciaccia (2015) sobre o “Um do vazio”, necessário para que o trabalho feito por vários se torne possível. Algo vindo tanto de um praticante como de um paciente pode ensinar a todos. “É a relação a esse Um do vazio que desvela as relações dos efeitos imaginários, das rivalidades internas ou externas ao grupo, entre os muitos que nos somos. Rivalidades que estão, geralmente, na origem de um empobrecimento de nosso trabalho”[5]. Esse modelo de funcionamento, da lugar a singularidade de cada um, ao mesmo tempo em que sustenta a prática e a transmissão, sem anular o desejo do praticante e fazendo circular a palavra entrevários:

 

Horizontalmente, então, não temos “todos iguais” imaginários, pois cada um é particular em sua relação à Causa. Certamente os efeitos imaginários não serão todos evacuados, como a instalação de um outro que sabe em nosso lugar, figura imaginaria que assombra toda instituição, para fazer, assim, a economia de se questionar, com os outros, sobre sua própria pratica, pela qual cada um é constantemente chamado a ser responsável na primeira pessoa”.[6]

 

Se pensarmos na experiência nos quatro pontos citados por Stevens, acreditamos que nesse pequeno grupo discutimos sobre a formação do praticante, a desespecialização, que leva em consideração o desejo individual e a dinâmica transferencial singular de cada um com a psicanálise. A formação, nos dois momentos, de construção e apresentação do caso, articulado às questões teóricas. A invenção pensada a partir da circulação da palavra dos grupos menores na reunião clínica, e de forma ampla relacionando os impasses que surgem no seu funcionamento.

Por fim, é possível ainda neste grupo menor, ter notícias dos efeitos de formação nas análises pessoais e na própria clínica de cada um, sustentada pela transferência com a psicanálise. Ainda Di Ciaccia nos lembra:

 

A análise também é um trabalho feito por muitos, mas esse “muitos” é um pouco particular: há duas pessoas em carne e osso, o analisante e o analista, mas há também um corpo de palavras que circula – como diríamos, um corpo diplomático – e, depois, há sobretudo um corpo de gozo a revelar – como diríamos, o corpo da vítima. E, entre esses quatro personagens, eis que passeia toda uma multidão de figurantes – mães, pais, criança, companheiros, amantes, etc – figurantes aos quais se solicita abandonar, pouco a pouco, o lugar, esvaziar os lugares, ate o momento em que o analisante se encontra só, sem palavras, empobrecido de seu gozo, e sem o reconforto da voz ou do olhar de seu Virgílio ou de sua Beatriz”.[7]

  

           

 

 

 

[1] Stevens. Alexandre; Instituição: pratica do ato; in Curinga 13

 

[2] Lacan, A direção do tratamento

 

[3] LACAN, J. Ato de Fundação, in Outros Escritos, RJ, Zahar, 2003, p. 242.

 

[4] Sobre isso, cabe conferir as premissas de um cartel no site da Escola Brasileira de Psicanálise: https://www.ebp.org.br/carteis/.

 

[5] Di Ciaccia, Da fundação por um à pratica feita por muitos, in Curinga 13, p. 53

 

[6] Ibid, p. 53

 

[7] Ibid, p. 50

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