Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com a Criança e o Adolescente – Ciranda SP



Solicitamos que os interessados em participar do Núcleo Ciranda-SP se inscrevam até o dia 20/03/2021 através do e-mail:

nucleocirandasp@gmail.com

Cronograma de reuniões do semestre:

  • Março: 25

  • Abril: 08 e 22

  • Maio: 06 e 20

  • Junho: 10 e 24

  • Horário: 20:00 às 21:30 hs, sempre às quinta feiras, pela plataforma Zoom, o link será enviado por e-mail no dia da reunião.


Neste semestre, vamos dar continuidade ao trabalho de investigação iniciado no segundo semestre de 2019 em torno do tema “Sexuação da criança”, apresentado na 5ª Jornada de Estudo do Institut psychanalytique de l’Enfant. Através da coordenação da NRCereda, essa pesquisa se sustenta a partir do enlaçamento entre os diversos Núcleos no Brasil e em outros países na perspectiva de um trabalho em rede através do Campo Freudiano, pela via dos Institutos. E no caso de São Paulo, este vínculo se estabelece através do Clin-a.


Elegemos algumas questões para realizar um percurso teórico-clínico e vamos retomá-las a partir da orientação de que só é possível abordar a diferença sexual pela singularidade dos modos de gozar, entretanto, há que se considerar as mudanças na atualidade que incidem sobre os semblantes.


Pretendemos retomar em nossa primeira reunião, no dia 25.03.2021, os pontos levantados ao longo desta trajetória sob forma da elaboração de um trabalho produzido pela coordenação do Ciranda-SP que será compartilhado com os participantes.


E convidamos a todos e todas que participem do VI Encontro dos Núcleos da NRCereda no Brasil: Os impasses do sexual e os arranjos da sexuação que vai se realizar no dia 11.03.2021, um dia antes do XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano (segue em anexo o programa do VI Encontro dos Núcleos e o VII Conversação do Cien-Brasil).


Link para inscrição no evento: https://www.encontrobrasileiro2020.com.br/eventos-do-campo-freudiano/

A proposta será a de dar lugar às ressonâncias deste Encontro, retomar as formulações produzidas em nossas reuniões e agregar novos elementos para que possamos aprofundar o que nos interessa e relançar novas questões.



Resenha da reunião realizada no dia 23/04/2020


No dia 23/04/2020, o Núcleo Ciranda-SP retomou as reuniões no formato online.

Para orientar o trabalho em torno do tema da “Diferença sexual”, o eixo de pesquisa que escolhemos dá lugar ao saber que a criança constrói diante do não saber sobre o sexual. O analista deve se colocar ao lado da criança para escutar os arranjos que ela faz e os nomes que ela dá frente à ausência de inscrição desse novo saber implicado no encontro com um gozo que incide sobre o corpo.


O eixo de pesquisa do Núcleo busca circunscrever a diferença sexual pela singularidade dos modos de gozo e a busca de um entendimento de como isto ocorre no sujeito contemporâneo e nesta primeira reunião pudemos nos servir de pequenos recortes teóricos – a novidade introduzida por Freud sobre o “fator sexual” e sua determinação precoce que efetua a posição sexuada no corpo falante, a diferença entre identidade e identificação e a fragilidade desta no contemporâneo que nos conduz a pensar a sexualidade na criança em relação ao Outro que mudou. É preciso destacar os significantes da época do discurso atual em que notamos um empuxo ao neutro, associado à crise do falo e ao declínio da função paterna que não alcança metaforizar o desejo da mãe, colocando o sujeito às voltas do império materno cuja lei caprichosa nos convoca a formular novos entendimentos a partir do que Lacan nomeou o Outro gozo que fica por fora da lógica fálica.


Esses pontos foram abordados e discutidos em animada reunião oferecendo mais elementos de pesquisa que terá continuidade em encontro já marcado no dia 07/05/2020 às 20:00 horas.

A coordenação vai retomar alguns pontos trabalhados buscando uma articulação com os dois primeiros paradigmas do gozo, de Miller.


Informações e inscrições de 01/05 a 06/05: nucleocirandasp@gmail.com (Vagas limitadas)

Coordenação: Camille Apolinário Gavioli e Raquel Diaz Degenszajn com a colaboração de Silvia Jacobo.


Referências:

Vídeo sobre a abertura dos trabalhos da NR Cereda por Nohemí Brown

https://drive.google.com/file/d/15uHfelG1h8SH5VclC8cWixfCofByufW/view?ts=5e6be07e


Textos de orientação sobre o tema: “Diferença sexual”


http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/quatro-perspectivas-sobre-a-diferenca-sexual/

http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/



Argumento das Jornadas do Instituto da Criança:

http://r.email.institut-enfant.fr/mk/mr/ZPHYlwA6jiWR31j1NRpP_woeeTdP4WDzAfCJbHFHxi7Gcqkj7fkk27Ij-AtL6dsqnC0IlVVov0-EINZ8UEGcj6Wo0QGtZEiEvhObnqFDVs7C-VrL

Freud: “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) - “Organização genital infantil” (1923)

Miller: “Los seis paradigmas del goce” en El lenguaje, aparato de goce – Conferencias en Nueva York y cursos en París. Colección Diva, junio 2000

Miller: Clase Xlll – “Paradigmas del goce” en La experiencia de lo Real en la cura Psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2011

Miller: Silet: Os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005

Miller: “Os seis paradigmas do gozo”

http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf



Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 07.05.2020



Retomando a novidade freudiana trazida a partir dos “Três ensaios” de que a sexualidade se organiza a partir do falo, “órgão pivô” para menino e menina se situarem em que pese a questão da dissimetria entre os sexos, pudemos avançar com Lacan na medida em que tomamos o significante como um modo de tratamento do gozo. Em seu último ensino, acompanhamos o deslocamento do “querer dizer” para o “querer gozar” a partir desta outra novidade lacaniana que estabelece a existência do gozo fora da representação, nomeado gozo feminino ou Outro gozo, abrindo um campo mais além do Édipo.


O argumento das Jornadas da NEL, intitulada “O insuportável da infância” nos ajuda a localizar que o que perturba é o gozo e “o insuportável da infância encontra um referente fundamental no insuportável da satisfação pulsional associada ao desprazer”. Considerando que frente “ à lei universal presente para toda a criança sobre a existência de uma pulsão sexual (...) se inscreverá a singularidade do real pulsional de cada um, um por um”1.


Seria pela via do sintoma enquanto satisfação substitutiva da pulsão que algo se inscreve, entretanto, avançando sobre a indicação de Lacan sobre o lugar da criança para além do estatuto de sintoma do casal parental, nos interrogamos sobre como se apresentam hoje na clínica as crianças e os adolescentes? – desregulados, medicados por sofrimentos difusos, sem queixas nem demandas, sem divisão subjetiva – prova de um real que retorna sem lei marcado pelo empuxo ao gozo. A posição sexuada não pode ser confundida pelas questões relativas ao gênero que são trazidas como questionamentos ligados às identificações que nada dizem sobre como o gozo se singulariza.


As diversas vinhetas clínicas trazidas pelos participantes na discussão revelam esta desorientação e nos convocam a situar a questão do falo e da castração como uma lanterna, neste momento, para articular a relação com o Outro, sem a qual não há infância, naquilo que Miller destaca sobre o segundo paradigma do gozo2 . O deslocamento do estatuto do falo enquanto imagem para o simbólico opera a significantização do gozo e acompanhar essa trajetória do gozo à castração – tal como vemos construída no grafo do desejo será objeto de nossa próxima reunião no próximo dia 21/05/2020, dando continuidade às pontuações de Silvia Jacobo sobre o Seminário de Miller.


Propomos seguir em nossa discussão, no segundo tempo da reunião a partir da apresentação feita por Renata Durce sobre o texto “Trans: sexo e gênero na idade da infância”, convidando a todos e todas a participarem com suas contribuições.


Os participantes que já se inscreveram vão receber o convite para a reunião e os que desejam se inscrever, entrem em contato pelo email: nucleocirandasp@gmail.com entre 18/05 até 20/05 (vagas limitadas).

Até lá!


Coordenação Núcleo Ciranda-SP

Camille Apolinario Gavioli

Raquel Diaz Degenszajn

Colaboração

Silvia Jacobo



1 https://jornadasnel2020.com/template.php?file=argumento-y-ejes.html

2 http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

3 ROY, D. Trans: sexo e gênero na idade da infância. In: SANTIAGO, A.L. (Org.). Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas. Belo Horizonte: Scriptum, 2017. p. 177-188.


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 21/05/2020


Nesta reunião foram retomados os dois primeiros paradigmas do gozo, proposto por Miller1 e destacados alguns pontos importantes. No primeiro paradigma, encontramos a prevalência do imaginário e do gozo concernido a este registro, mas não sem o simbólico. A satisfação fica do lado da decifração e do sentido, e significante e gozo são disjuntos. No segundo paradigma, o gozo vai se significantizar devido à primazia dada ao simbólico neste momento do ensino de Lacan. Neste paradigma, vale destacar que o falo como objeto metonímico e como imagem será alçado ao estatuto de significante e com isto temos uma operação de redução do Complexo de Édipo e a releitura lacaniana que privilegia a castração. O falo passa a ser uma significação produzida pela metáfora paterna em que a ação do Nome do Pai sobre o Desejo da Mãe atua sobre a significação desconhecida para o sujeito e produz no Outro a inscrição do falo, isto é a significação fálica.

A retomada dos três tempos do Édipo, a partir da dialética fálica é fundamental para que possamos trabalhar o lugar da criança na estrutura, na medida em que podemos problematizar na clínica como a criança responde ao enigma do desejo do Outro. Considerando que nessa operação algo necessariamente resta, ou seja, o gozo não será completamente metaforizado e absorvido pelo simbólico e o modo como isso se recupera. Vale dizer que teremos como consequências duas vertentes: a metonímica, isto é, a criança como falo imaginário que falta à mãe e a metafórica em que o falo se significantiza como desejo do Outro.

Em seguida, Renata Durce apresentou alguns aspectos sobre o texto de D. Roy2 a partir da distinção entre o diagnóstico proposto pelo DSM-5 – disforia de gênero – e o entendimento da Psicanálise que escuta o sujeito a partir de seu modo de gozo, procurando cernir o que há da inscrição da diferença sexual e não simplesmente de seu comportamento ou da demandas de novas identidades.

A proposta para a próxima reunião é de partir da metáfora paterna para lançar a questão de como a criança trata a falta para tramitar a diferença sexual, isto é, frente a castração.

Daremos sequência à discussão do texto de D. Roy, “Trans: sexo e gênero na idade da infância” – em anexo - com as contribuições de Aline Oliveira e Renata Durce, na segunda parte da reunião que vai ocorrer no dia 04/06/2020 às 20:00.

Os participantes já inscritos vão receber o convite para a reunião e os interessados podem se inscrever de 01/06 à 03/06 através do email: nucleocirandasp@gmail.com. Estamos em fase de transição para o uso de nova plataforma, o google meets, portanto, todos vão receber o convite por email 5 minutos antes do início.

Até lá!



1 http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

2 ROY, D. Trans: sexo e gênero na idade da infância. In: SANTIAGO, A.L. (Org.). Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas. Belo Horizonte: Scriptum, 2017. p. 177-188.


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 04/06/2020


Na primeira parte desta reunião, foi marcada a importância do conceito do falo e seus deslocamentos do início ao fim do ensino de Lacan. Para tanto, retomamos os três tempos do Édipo para destacar que a criança, desde o início, ao se confrontar com o gozo da mãe se depara com uma lei caprichosa e absoluta representada pela dimensão real de uma exigência de amor mortífera. A mãe insaciável, trabalhada ao longo do Seminário 4, representa essa versão devoradora em que a criança seria o equivalente do falo que poderia satisfazê-la. Pela ação da palavra do pai e o efeito da significação fálica, algo desse gozo poderá se circunscrever e a dimensão da falta se instaurar. Porém, não somente nesta via e avançamos um pouco mais ao considerar que a mulher na mãe pode limitar esse gozo opaco. Temos, assim, que a sexualidade feminina abre uma perspectiva fundamental para a clínica com a criança e como esta pode se localizar em termos de estrutura, permitindo ao analista sustentar a direção do tratamento.

Seguimos na discussão do texto de D. Roy1 com a apresentação e comentários de Aline Oliveira e Renata Durce do “caso Jim” em que pudemos levantar questões acerca de aspectos sobre o “trans”: a certeza sobre a mudança de corpo, sem interrogações, o confronto com os ditos familiares, a demanda de reconhecimento social e o empuxo à escolha “consciente” de um nome que represente o sujeito para além da norma.

Daremos continuidade ao trabalho, apresentando mais alguns elementos2 para embasar nossa pesquisa e vamos tratar da última parte do texto de D. Roy, com as contribuições de Flaviana Pires e Aparecida Berlitz na próxima reunião no dia 18/06/2020 às 20:00.

Os participantes já inscritos vão receber o convite para a reunião e os interessados podem se inscrever de 15/06 à 17/06 através do email: nucleocirandasp@gmail.com. Estamos utilizando a plataforma Google Meet e todos vão receber o convite por email 5 minutos antes do início.

Até lá!

Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 18/06/2020


“Quando digo que não há relação sexual, formulo, muito precisamente, esta verdade: que o sexo não define relação alguma no ser falante. Não é que eu negue a diferença que existe, desde tenra idade, entre o que chamamos de uma menina e um menino. É inclusive daí que eu parto”1.


“A identificação sexual não consiste em alguém se acreditar homem ou mulher, mas em levar em conta que existem mulheres para o menino, e existem homens, para a menina”2.


Tomando como ponto de partida estas duas citações de Lacan a respeito do tema de nossa pesquisa, destacamos que a diferença sexual entre homem e mulher está posta de entrada. A busca de formalização sobre o conceito de falo nos orienta a ressaltar este termo na relação primordial da mãe com a criança e que esta deseja ser desejada como significado fálico graças à operação da metáfora paterna. As consequências, desde Freud, são as identificações trabalhadas como semblantes em Lacan onde homem e mulher têm relação com o falo simbólico, isto é, marcado pelas leis da linguagem.


Lembrando que a irrupção do gozo heterogêneo é sempre traumática para o ser falante e que aponta para uma impossibilidade: nem tudo é significante, por mais que as crianças se dediquem à construção das teorias sexuais, fica um resto. E este será ordenado de algum modo pela via dos objetos pulsionais e pela fixação de gozo apoiado na fantasia. É desde a posição desejante que a escolha sexuada e inconsciente se opera.


Isto pôde ser ilustrado através de 3 vinhetas clínicas em que se sublinhou a importância daquilo que uma mulher transmite a partir de sua posição enquanto mãe, de modo paradigmático.


Hans, identificado à irmãzinha Anna, é tomado como fetiche pela mãe e se localiza em uma posição passiva. A metáfora paterna se realiza, mas como sabemos, é sempre falha e será preciso que Hans invente uma solução: a fobia vai permitir que ele encontre a suplência do pai a partir do sintoma e da fantasia. De modo singular, ele supre esta falha duplicando a mãe ao recorrer à avó paterna.


Gide, na medida em que não foi desejado e, portanto, não foi falicizado a despeito da dupla mãe, se localiza a partir da dissociação entre amor e desejo. Algo fica comprometido estruturalmente pela não inscrição do falo no simbólico que incide sobre o sentimento de vida. Sua solução radical é de tornar-se pedófilo.


Na jovem homossexual, sua solução vai se constituir a partir de uma ruptura representada pela gravidez da mãe. Decepcionada com o pai, abandona o desejo de filho e se dirige à mãe como objeto de amor, assumindo uma posição de desafio: ela pode dar sem ter e mostrar para o pai como se ama uma mulher. Ao jogar-se da ponte, ela demonstra a perda definitiva do objeto e uma espécie de parto simbólico. Ela se faz, ela mesma, essa criança que não teve.


Com essas considerações, é possível formular que a criança pode realizar uma dupla operação na mãe: dividir e preencher, ao mesmo tempo. A metáfora infantil do falo, assinalada por Miller3, como consequência da metáfora paterna, põe em jogo que é preciso que a metáfora infantil falhe, preservando o não todo do desejo feminino. Ao ser tomada como objeto do desejo da mãe, a criança pode ficar fixada nessa posição, sem acesso à significação fálica e à castração simbólica. Com isso, evidencia-se que não basta o Nome-do-pai para que se recalque, na mãe, seu ser de mulher. Vale dizer ainda que a função do pai diz respeito à humanização do desejo, na medida em que este se particularize sobre a criança, assim como cabe consentir que a mulher possa ser outra para si mesma.


Na segunda parte, discutimos o caso Matt em que foi ressaltada a tentativa de dar um nome a algo que não se inscreveu e que surge muito precocemente neste sujeito. A escuta do analista (no CPCT) permitiu interrogar o que era passível de ser questionado. Foi possível fazer uso de alguma ‘dialética’, com efeitos importantes e, inclusive uma certa suspensão de “tomada de decisões” e o direcionamento para um tratamento analítico.


Em nossa última reunião do semestre que será no dia 02/07/2020 às 20:00 hs, vamos discutir os pontos que levantamos, articulando questões epistêmicas do texto de D. Roy4 aos textos de orientação da pesquisa à luz do percurso que construímos até o momento.


Os participantes já inscritos vão receber o convite para a reunião e os novos interessados podem se inscrever de 29/06 até 01/07 através do email: nucleocirandasp@gmail.com.

Todos receberão o link da reunião por e-mail 10 minutos antes do início.

Até lá!


1 Lacan, J. O Seminário, livro 19: ...ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 13.

2 Lacan, J. O Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 33.

3http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_15/crianca_entre_mulher_mae.pdf

4 Roy, D. Trans: sexo e gênero na idade da infância. In: SANTIAGO, A.L. (Org.). Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas. Belo Horizonte: Scriptum, 2017. p. 177-188.


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 02.07.2020


Em nossa última reunião do semestre, abrimos a perspectiva sobre a questão do pai em nosso percurso de pesquisa.


Trabalhamos a criança como falo imaginário da mãe correlativo à metáfora paterna e à significação fálica como noções que se articulam com os dois primeiros paradigmas do gozo, de acordo com Miller. Este período do ensino de Lacan (anos 50) corresponde a ideia da criança-falo e nos propomos a acompanhar o deslocamento para a criança-objeto (anos 60).

Em “Nota sobre a criança”, Lacan avança sobre a função do pai, antes concebido como operador de regulação do desejo articulado à dimensão simbólica do falo, afirmando sobre o pai (...) “na medida em que seu nome é o vetor de uma encarnação da Lei no desejo”1.


Neste momento, coloca-se em jogo a primeira versão do real no ensino que pode ser localizada no Seminário 7, ao trazer o conceito freudiano de das Ding, como uma espécie de chiste por seu caráter estranho – Umheimlich – pois não se trata de um termo simbólico. Lembremos que a mãe ocupa o lugar de das Ding, é o objeto por excelência, protegida pela barreira do Édipo. O acesso a esse gozo se dá por um forçamento, por ser estruturalmente inacessível só se dá por transgressão. Aqui fica nomeado o gozo como impossível.


O falo será denominado significante do gozo – enquanto símbolo de das Ding – mas como lugar vazio. Este termo será abandonado, a noção de gozo fragmentado vai adquirir uma centralidade no ensino e como “a própria natureza do gozo parece rebelde para ser conservada sob o temo de significante”2, Lacan introduz então, o objeto pequeno a.


E quais seriam as consequências para a função paterna? O pai passa a representar não somente proibição, que interdita, mas como aquele que faz recorte, uma extração e por outro lado, causa desejo. Sua função, portanto, seria a de subjetivar no simbólico o que faz no real, impossível. “O pai enquanto vetor de uma encarnação da Lei no desejo” (Seminário 11) significa inscrever o menos phi (- ϕ), ou seja, a subjetivação do objeto como falta. Quando isso não ocorre, o objeto fica positivado e pode caber à criança ocupar o lugar de objeto da fantasia da mãe.


Ainda em ‘Notas sobre a criança’, trabalhamos a referência do pai como aquele que teria que assegurar “a distância entre a identificação com o ideal do eu e o papel assumido pelo desejo da mãe”3, e algumas consequências quando isso não ocorre.


Encontramos uma terceira escansão sobre a função do pai como aquele que localiza a mulher como causa de desejo que se refere ao último ensino e que vamos nos debruçar mais adiante.

Retomamos a discussão sobre o texto de D. Roy5, em que o significante “trans” se destaca como agalmático e marcado na atualidade. Que utilidade pode ter este nome? Esta foi a questão que nos ocorreu para pensar a clínica e o que aparece como demandas em relação às tentativas e os esforços em torno da nomeação de sujeitos confrontados com o gozo opaco que não entra no simbólico e que se apresenta como uma alteridade radical. Depois da infância, o sujeito tem que inscrever a diferença sexual no discurso, a partir de um gozo heterogêneo, enigmático, aquele que se liga ao sexo e que ao não ser absorvido pela via fálica, se sintomatiza e não caberá ao analista normatizar, já que toda a sexualidade, desde Freud, é perversa e polimorfa.

Vamos retomar nossas reuniões no dia 30.07.2020 às 20:00hs


Solicitamos aos novos interessados que se inscrevam e aos já inscritos que confirmem seu interesse em acompanhar as reuniões do 2º semestre/2020, através do e-mail nucleocirandasp@gmail.com. Estamos atualizando nossa lista até o dia 29.07.2020. O link para acesso será enviado 15 minutos antes do horário da reunião.


Cronograma previsto para o segundo semestre:

Agosto: 13 e 27

Setembro: 10 e 24

Outubro: 08 e 22

Novembro: 05 e 26


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 30.07.2020


Retomamos as reuniões neste semestre tomando como ponto de partida os dois textos de D. Roy1para discutir a distinção entre sexuação e diferença sexual. Procuramos trabalhar, a partir do fato de que o ser sexuado traz uma marca enigmática em seu próprio corpo, um traço de alteridade absoluta de sua condição e que encontra na distinção de gênero uma primeira roupagem, vinda do Outro. A sexuação se refere à posição de gozo do falasser, em que o corpo é incluído de outro modo no último ensino de Lacan, enquanto a diferença sexual diz respeito à diferença absoluta.


A infância seria o tempo em que cada um tem que lidar com o fato de ser sexuado, em que pese a falha inata, natural sobre o não saber a respeito do que é ser homem ou ser mulher, evidenciando a falha entre os semblantes e o gozo – sempre estrangeiro e invasivo. Será preciso, portanto, construir um saber sintomático sobre o que não é conciliável e caberá ao analista, na clínica, investigar como a criança se coloca diante da falta frente à castração e como ela interroga o gozo dos pais.


Cabe retomar a citação, que já trabalhamos em Lacan no Seminário 18, mas que neste ponto, avançamos mais um passo: “A identificação sexual não consiste em alguém se acreditar homem ou mulher, mas em levar em conta que existem mulheres, para o menino, e existem homens, para a menina. E o importante nem é tanto o que eles experimentam, o que é uma situação real, permitam-me dizer. É que, para os homens, a menina é o falo, e é isso que os castra. Para as mulheres, o menino é a mesma coisa, o falo, e ele é também o que as castra, porque elas só adquirem um pênis, e isso é falho. No começo, nem o menino nem a menina correm riscos, a não ser pelos dramas que desencadeiam; por um momento, eles são o falo. É esse o real, o real do gozo sexual enquanto destacado como tal: é o falo. Em outras palavras, o Nome do Pai.”2


Nas fórmulas das sexuação, vemos a elaboração de um gozo fora da chave fálica, suplementar e que não está inscrito na linguagem, é estrutural e impossível de dizer. Para entender a diferença sexual e a sexuação, há algo além da dialética fálica, mas não sem o falo, Lacan vai dar ênfase à castração operada pela linguagem que estabelece a diferença e ir além do mito edípico freudiano em direção à questão do gozo estrangeiro. Assim, acompanhamos Lacan no Seminário 19, ao definir mais um avanço no trabalho sobre o falo: “Por que não seria possível imaginar e escrever uma função do gozo?”3


Na próxima reunião no dia 13.07.2020 às 20:00, vamos trabalhar um pouco mais essa passagem do falo como significante para a função do falo em nossas discussões com a contribuição de Eduardo Vallejos na primeira parte. E propomos uma conversação sobre o caso Lo Perdido, a partir de uma leitura passo a passo para aprofundar os momentos cruciais na direção do tratamento de uma criança.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 12.08.2020 através do email: nucleocirandasp@gmail.com


Até lá!



1 Roy, D. https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/etre-sexue-1/ e https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/etre-sexue-2/

2 Lacan, J. Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 33

3 Lacan, J. Seminário, livro 19: ...ou pior (1971-2). Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 20

4 Nizcaner, D. “Lo perdido” In: Kuperwajs, I. (compiladora). Psicoanalisis com niños 3. Tramar lo singular. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2010, p.93-97


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 13.08.2020

Começamos o encontro com a contribuição do colega participante do Núcleo Eduardo Vallejos, cuja pesquisa se refere ao estatuto do semblante na perspectiva da père-version, os usos do semblante e a sexuação.. Retomando o estatuto do falo e o declínio do Nome-do-pai em relação à virilidade e aos usos do semblante, desenvolve a passagem do falo imaginário ao falo como significante. Refere-se ao Seminário 8[1] para localizar a função simbólica do falo como signo do desejo, presença de uma ausência, e se pergunta de que modo significante e gozo se articulam. E a partir da consideração da imiscuição do adulto na criança, tal como proposta no texto de orientação[2], se detém no estatuto da função do falo como significado do gozo.


Também traz elementos para pensar a passagem do estatuto do falo à dimensão do semblante, levando em consideração as contribuições de Miller em seu curso “De la naturaleza de los Semblantes”. Aguardamos com entusiasmo o produto da sua pesquisa.


Na segunda parte de nosso encontro, apresentamos o caso “Lo perdido” de nossa colega de EOL, Debora Nizcaner[3]. O caso nos ensina de que modo na clínica com crianças a questão se centra na pergunta pelo desejo do Outro e também esclarece acerca das incidências do discurso analítico no tratamento de um problema libidinal bem como do problema do gozo em uma criança.


O caso apresentado permite considerar de que modo - tal como Brousse[4] nos orienta - a diferença sexual se formula no campo das identificações e da fantasia. Na conversação, foi destacada a imiscuição do adulto na criança, a posição da criança no discurso parental e o lugar do saber da criança, como um saber autêntico, sabido ou não, um saber respeitado em a sua conexão como o gozo, tal como é considerado por Miller, em A criança e o saber[5].


Em nossa próxima reunião, 27/08, retomaremos o caso Lo perdido, a partir da frase fantasmática e a importância dessa circunscrição e desdobramentos em um tratamento analítico. Também seguiremos com apontamentos do Paradigma 4[6] na medida em que se articulam à pesquisa de nosso Núcleo.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 26.08.2020 através do email:

nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!

Coordenação Núcleo Ciranda-SP

Camille Apolinario Gavioli

Raquel Diaz Degenszajn

Colaboração

Silvia Jacobo

[1] (1960-61) O Seminário, livro 8: A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.

[2] http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/quatro-perspectivas-sobre-a-diferenca-sexual/

[3] Nizcaner, D. “Lo perdido” In: Kuperwajs, I. (compiladora). Psicoanalisis com niños 3. Tramar lo singular. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2010, p.93-97

[4] http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/

[5] http://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2018/11/CIEN-Digital11.pdf

[6] http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 27.08.2020

Nesta reunião, aprofundamos um pouco mais a discussão do caso “Lo perdido”1. Para tanto, partimos da afirmação de M.H. Brousse: “é certo que a diferença sexual só pode se formular no campo da identificação e da fantasia. Ser classificado por gênero só é possível do lado da lógica do todo e da exceção fálica”2.


Trata-se de uma escolha – sempre sintomática – quanto à posição sexuada e que tem a ver com o consentimento do sujeito.

A constituição da fantasia, solidária às operações de efetuação da estrutura do sujeito, graças às operações de alienação e separação, é estabelecida por Lacan como uma resposta ao enigma do desejo do Outro e articula gozo e desejo. Trata-se de um modo de acesso à satisfação para o sujeito, pois localiza o gozo e um modo de gozar, e ordena a realidade do sujeito.


“Você pode me perder?” é a questão que inaugura esta inversão em que o sujeito se transforma em objeto para o Outro e que no caso, fica evidenciado pela interpretação que a analista faz sobre “a criança perdida no desejo materno”3, fazendo um corte sobre a escuta dos pais para a escuta da criança, uma vez marcado um significante particular deste sujeito.


A fantasia permite velar o real, mas há algo que resta e que vai se sintomatizar. No Seminário 6, acompanhamos a dimensão simbólica da fantasia que se refere a uma frase fantasmática que permite localizar lugares: o sujeito, o objeto e o Outro. O sujeito se localiza e se inclui na cena em questão, devido à fixação da repetição em que se estabelece uma determinada gramática pulsional.


Lembremos que no Seminário 11, Lacan articula desejo e gozo a partir do objeto, trazendo a noção de causa de desejo. Cabe distinguir o objeto da pulsão que cumpre um circuito, ao ser contornado pela pulsão acéfala do objeto da fantasia.


A resposta subjetiva desta criança, no ponto de virada do tratamento em que passará a ser escutado pela analista, pois o separa do mito familiar, advém sob forma sintomática e se apresenta sob transferência. É preciso que a analista se oriente pelo sintoma para dar conta do gozo e é isto que podemos acompanhar a partir da interpretação que a analista faz sobre essa dimensão quando o garoto fica sonolento e vai para o banheiro durante as sessões.


Vale ressaltar que a enurese, para Freud, corresponde à excitação sexual e se refere a uma satisfação de gozo, com Lacan podemos dizer que se trata de um gozo hetero que irrompe e que se sintomatiza. Neste caso, o sintoma “desperta” o garoto, perturbado por um gozo estrangeiro. Ao intervir: “você pode fazer com ele o que quiser”, a analista permite dar um valor de uso do falo, articulando aquilo que no órgão ganha valor fálico e se inscreve no corpo.


Na sequência do tratamento, notamos o trabalho que se sucede em torno de desenhos de labirintos e da construção que a criança faz de um campo que se divide entre meninos e meninas, evidenciando a entrada na dialética fálica. “Eu tenho uma cenoura e dois ovos” é o modo como este menino vai responder aos colegas quando “zoam ele”. Ademais, decide escrever uma carta de amor para uma menina, apontando as consequências da operação da sexuação e da escolha de objeto.


Finalmente, podemos acrescentar algo dos efeitos deste tratamento, além da inclinação pela arte por parte deste menino, ligado à questão da identificação viril do lado do ideal: ser engenheiro, como o pai.


Pretendemos na próxima reunião que será no dia 10.09.2020 às 20:00 hs, trabalhar o quarto paradigma de Miller4 e discutir o texto publicado recentemente em Rayuela: “Algumas pontuações na evaporação do pai” de Paula Husni5.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 09.09.2020 através do email:

nucleocirandasp@gmail.com


Até lá!


Referências:

1 Nizcaner, D. “Lo perdido” In: Kuperwajs, I. (compiladora). Psicoanalisis com niños 3. Tramar lo singular. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2010, p.93-97

2 Brousse, M.H. http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/

3 Nitzcaner, D. Op. cit., p. 95

4Miller,J.A. http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

5 Husni, P. http://www.revistarayuela.com/es/007/template.php?file=notas/algunas-puntuaciones-sobre-la-evaporacion-del-padre.html



Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 10.09.2020

Dando continuidade ao trabalho epistêmico em torno do texto de Miller1 que tem orientado nossa pesquisa, avançamos a discussão sobre o paradigma 4, intitulado como “gozo normal”, cujo ponto fundamental é a noção de objeto a.


Trata-se de um momento de virada no ensino de Lacan, marcado pela ex-comunhão da IPA e pelo desenvolvimento dos quatro conceitos fundamentais, a partir da releitura de Freud empreendida ao longo dos 10 anos que antecederam este momento. Vale dizer que uma nova abertura se dará em torno da pluralização dos Nomes do Pai.


Temos, então, o gozo fragmentado e acessível via pulsão, o que significa dizer que o gozo vai se inscrever na estrutura pela via do gozo pulsional, abandonando a noção daquilo que não pode ser simbolizado e está fora do sistema. Assim como a pulsão, Lacan vai propor o funcionamento do inconsciente como uma hiância, em termos de abertura e fechamento, tornando-o homogêneo a uma zona erógena, afirmando uma aliança entre significante e gozo. A satisfação será concebida pela via da repetição do circuito pulsional que se constrói no trajeto em torno do objeto, contornando o vazio.


Graças à elaboração das operações de constituição do sujeito – alienação e separação – o gozo está presente no funcionamento significante, além do desejo.Primeiramente, a identificação supõe um significante que representa o sujeito, um significante, de certa forma, absorvente, que está no Outro e com o qual o sujeito se identifica ao mesmo tempo em que permanece como conjunto vazio. Trata-se do que Lacan chama de divisão do sujeito. (...) O que Lacan chama de separação é a sua maneira de retraduzir a função da pulsão como respondendo à identificação e ao recalque. Ali onde havia o sujeito vazio, aparece, então, o objeto perdido, o objeto pequeno a.”2


Portanto, há uma sobreposição da estrutura do sujeito à estrutura do gozo: na medida em que o sujeito se define como falta a ser. E nesta mesma direção, o inconsciente é pensado por Lacan como uma descontinuidade, algo bastante distinto da noção de ordem e cadeia, que predominava sob a égide do simbólico.


O procedimento utilizado por Lacan consiste em elementarizar das Ding na forma de objeto pequeno a, na medida em que ele encarna e a reproduz, é sua figura elementar e ao mesmo tempo, provém do Outro. “É como se, pelo objeto pequeno a, o Outro do significante impusesse sua estrutura à Coisa” (p. 21). Embora o objeto a seja um elemento de gozo, portanto, substancial, ele tem uma outra estrutura, mas se apresenta como um elemento. E esta propriedade encarna a sua inscrição na ordem simbólica.


Em seguida, assistimos ao curta metragem: “Vestido nuevo” de Sergi Perez3 que ilustra alguns pontos levantados no percurso das nossas discussões, a saber: a imiscuição do adulto na criança, a violência do Outro e a questão do semblante e seu uso.


Pretendemos abordar a questão do pai a partir do texto de P. Husni4 e seguir na trilha dos deslocamentos conceituais do ensino de Lacan e suas consequências, tendo em vista a clínica e como esta se apresenta na atualidade. A próxima reunião será no dia 24.09.2020 às 20:00.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem se inscrever até o dia 23.09.2020 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!

1Miller,J.A. http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

2 Ibidem, p. 18

3 https://www.youtube.com/watch?v=4yRPLx6eZfc&t=704s

4Husni, P. http://www.revistarayuela.com/es/007/template.php?file=notas/algunas-puntuaciones-sobre-la-evaporacion-del-padre.html


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 24.09.2020

A partir do texto de Paula Husni1, levantamos alguns pontos para trabalhar a dimensão do pai em nossa pesquisa. Tomando a afirmação de Lacan: “parece-me que em nossa época o vestígio, a cicatriz da evaporação do pai é o que poderíamos situar sobre a rubrica e o título geral de segregação”2, é possível discutir algumas consequências. Como por exemplo, isso se positiva em nossa época sob a forma das comunidades do gozo, onde o que é particular de cada um – o modo de gozo – pudesse enlaçar os sujeitos a partir de algo que se supõe como universal.

Na medida em que há uma incidência sobre a ordem simbólica, observamos uma mudança na regulação do gozo nos laços familiares onde o deslocamento daquilo que representa a lei é transportado ao Estado, fazendo a função de ordenar a partir do exterior o direito à livre escolha, retirando a autoridade antes atribuída aos pais. Temos como exemplo, na Argentina, a lei de identidade de gênero que permite a retificação do documento equivalente a nossa carteira de identidade por quem assim o desejar, inclusive os menores de idade.

Considerando que o Nome do Pai é um recurso para possibilitar um desejo e marcar uma interdição que permita viabilizar um sintoma, podemos situar o nome como uma marca do Outro e nestes casos, vemos uma tentativa de apagamento; evidenciando por um lado, uma rejeição do que vem do Outro e por outro, uma tentativa de inscrever algo que precisa ser melhor situado.

Nesse sentido, cabe perguntar sobre os efeitos na subjetividade em relação à escolha de nomes indefinidos – unissex – por parte de alguns pais ou mesmo a opção que já figura na certidão de nascimento em alguns países quanto à definição do sexo da criança como “indeterminado”, deixando a cargo de cada um esta decisão no momento que lhe convier.

Há casos de meninos e meninas que não encontram um modo de responder às irrupções de gozo no corpo e que se deparam com dificuldades quanto às identificações. O significante “trans” que recortam do social para se nomearem pode ser entendido como um suporte identificatório e que pode ter uma operatividade ao tentar criar uma borda a uma sexuação possível. Conforme destaca D. Roy: “o significante “trans” pode ser útil para certos adolescentes que querem diferir e manter à distância esta heterotipia que se manifesta neles mesmos, no âmago de seu corpo falante, lá onde o recalcamento, a inscrição no inconsciente não constitui uma via privilegiada”3.

No segundo ensino de Lacan, encontramos uma via para tornar operatória a função paterna, uma possibilidade da mãe “nomear para”, ao sublinhar como esse tipo de nomeação se sobrepõe cada vez mais à nomeação paterna. Ao designar um projeto para o filho, aprisiona-o numa ordem de ferro e Lacan destaca que nesses casos o social toma a prevalência de nó. Ao contrário do enlaçamento borromeano entre os três registros por um quarto anel, de modo que nenhum registro fica diretamente implicado em relação ao outro, uma vez estabelecida a nomeação edípica; as novas nomeações evidenciam o imaginário e o real do corpo, tornando os novos sujeitos refratários à intervenção analítica4.

Desse modo, podemos entender como a clínica se apresenta hoje com nomeações que localizam algo do gozo, mas de modo enrijecido, dando um lugar anônimo aos sujeitos, assim como o advento das comunidades de gozo de caráter segregativo.

Para situar a proliferação de significantes que emergem – agendro, bissexual, pansexual, transexual – para tentar circunscrever algo desse gozo intrusivo, a marca que se depreende de nossa época é justamente de um gozo sem perda. Esta oferta pode funcionar como um modo de deixar em aberto a amarração identificatória que permitiria localizar um sintoma, seguindo a trilha que Paula Husni nos propõe.

Caberá ao analista, no encontro com esses sujeitos não deixar consistir essas nomeações na via do sentido, entretanto, ao levar em conta o lado da solução que estes nomes podem vir a representar para cada um desses sujeitos, há que se devolver o lugar de semblante e acompanhar o uso que dele se pode fazer.

À guisa de conclusão, “a evaporação permite sempre seguir os rastros que deixa na superfície pela qual ascende, se adere, assenta seus restos e desenha novas marcas, às vezes, duradouras”5.

Para a próxima reunião, que será no dia 08.10.2020 às 20:00 hs, propomos pontuar algumas questões a partir do caso de Silvia Salman6.

O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 07.10.2020 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!

1 Husni, P. http://www.revistarayuela.com/pt/007/template.php?file=notas/algunas-puntuaciones-sobre-la-evaporacion-del-padre.html

2 Lacan, J. “Nota sobre o pai” In Opção Lacaniana, n. 71. Novembro/2015, p. 7.

3 Roy, D. “Trans: sexo e gênero na idade da infância”. In Santiago, A.L. (org) Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas. Belo Horizonte: Scriptum, 2017, p. 184.

4 Soria, N. http://www.enapol.com/pt/template.php?file=Textos/Las-nuevas-nominaciones_Nieves-Soria-Dafunchio.html

5 Husni, P. Idem.

6 Salman, S. “La función del sintoma em la cura: “um padre reciclado”. In Actualidad de la práctica psicoanalítica. Psicoanálisis com ninõs y púberes. Buenos Aires: Centro Pequeño Hans. Ediciones Labrado.



Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 08.10.2020

Nesta reunião, discutimos o caso de Silvia Salman1, sob a perspectiva do último ensino de Lacan, ou seja, a partir do que se apresenta na clínica hoje transformada pela globalização em que o pai já não reina mais.


Um garoto de 5 anos é trazido pelo pai com a queixa de que é “desligado, distraído” e que tem um amigo imaginário utilizado pela criança como um meio de falar com o pai. No encontro com a analista, o garoto se apresenta confuso e desorganizado, fala palavras soltas e frases interrompidas, não conclui um jogo ou brincadeira.


O tratamento vai se desenvolver com base na hipótese da criança situada como sintoma do pai. Vale dizer que o garoto responde sintomaticamente (“desligado” como o pai), isto se esclarece na medida em que acompanhamos como na leitura da analista ele realiza o sintoma do pai. A possibilidade da produção de um enlaçamento a partir de uma versão do pai vai permitir ao sujeito se posicionar em relação a sua história. A analista se propõe a interrogar o sintoma na clínica com a criança em relação ao conceito de fixação e a função de enlaçamento.


A partir de algumas construções em análise, incluídas as lembranças trazidas pela criança, podemos acompanhar as intervenções da analista que permitem a essa criança, entre outras coisas, produzir significantes que nomeiam o pai, sob a série chiquitito-chato-chatarra (pequenino-plano-sucata) como “um pai reciclado”, isto é, enquanto uma versão do pai. Salman sustenta que é enquanto sintoma e sua posição na estrutura o que vai permitir produzir o laço entre os três registros, destacando a função de suplência que ocorre a partir de uma invenção. Neste caso, construída em análise e este trabalho permite localizar a posição de gozo do sujeito.


As questões levantadas a partir da leitura do caso nos abrem o caminho para a elaboração do conceito de fixação pela via do que Freud formulou sobre “o laço particularmente íntimo da pulsão com o objeto apto para proporcionar satisfação” enquanto “em Lacan se encontra diretamente articulada com o próprio objeto a”2. Portanto, aqui temos uma relação estreita da fixação com o real, ou seja, como fixação de gozo. Essa localização, via nomeação, é um orientador na clínica.


Lembramos o que aprendemos com Freud que a fixação nos ajuda a entender o passo de Lacan em relação ao conceito de fantasia, na medida em que representa uma possibilidade para o sujeito de construir a realidade.


Algumas pontuações contribuíram para o entendimento dos deslocamentos conceituais sobre a questão do pai no ensino de Lacan, já que é algo presente do início ao fim, desde a releitura sobre o Édipo freudiano dos primeiros seminários, como percorremos neste ano de pesquisa no Ciranda-SP. A questão da pluralização dos Nomes do Pai implica no passo que será dado a partir do Seminário 20 em que a fórmula do Um e o quantificador da existência (nas fórmulas da sexuação) “logifica o pai”3.


No seminário seguinte, Lacan vai apresentar uma nova linha de interpretação a partir da equivocidade, de acordo com Brousse que destaca a interpretação real: “Pére-version” evoca o gozo e o “Non-dupes errent”, a crença. Portanto, a reintrodução do pai como versões possíveis e “como se, dos restos do Nome do Pai surgissem figuras do pai outrora unificadas por seu lugar de pedra angular no simbólico”4. Há ainda uma terceira equivocidade a ser sublinhada, contida entre “nome (nom)” e “não” (non), em que a função fica substituída pelo “nomear para”. Na sequência dos seminários, Lacan vai propor a fragmentação do Nome do Pai sob forma das entidades freudianas, Sintoma-Inibição-Angústia e finalmente no Seminário 23, termos a redução deste a um sintoma.


Todo o remanejamento conceitual que procuramos acompanhar nos orienta para a reflexão de como se apresenta a clínica contemporânea, de acordo com Miller que destaca como a clínica do não todo e a via do nó aberta por Lacan, “como uma série infinita de arranjos a partir de três rodinhas de barbante”5. A unidade elementar da clínica passa a ser o sintoma e não mais o que se chamava classicamente de estrutura clínica, em que o Nome do Pai atuava como pivô e se distribuía em função das posições do sujeito em relação a ele, as diversas modalidades de desejo e formas de defesa. Miller chama a atenção para a menor efetividade da metáfora paterna e a pulverização dos S1 como cruciais para a “crise de nossas classificações”6.


“A última clínica de Lacan tem como termo pivô o sintoma e nessa clínica o absoluto, a substância, é o gozo. [...] há apenas o gozo, em detrimento da verdade e do sentido. Nesse momento, não se trata mais de cura no fim da análise, não se trata mais da travessia, mas apenas da passagem de um regime de gozo a outro, de um regime de sofrimento a um regime de prazer”7.


Para a próxima reunião, que será no dia 22.10.2020 às 20:00 hs, propomos trabalhar algumas questões relativas ao paradigma 5 – o gozo discursivo – proposto por Miller8 e o discutir o recente editorial de Hervé Damase9, publicado em Zapresse.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 21.10.2020 através do email: nucleocirandasp@gmail.com


Até lá!


1 Salman, S. “La función del síntoma en la cura: “um padre reciclado”. In Actualidad de la práctica psicoanalítica. Psicoanálisis com ninõs y púberes. Buenos Aires: Centro Pequeño Hans. Ediciones Labrado.

2 Ibidem.

3 Brousse, M.-H. O inconsciente é a política. 2ª ed. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2018, p. 110.

4 Ibidem, p. 111

5Miller. http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_6/Intuicoes_Milanesas_II.pdf, p.19.

6 Ibidem, p. 19

7 Ibidem, p. 20-21.

8 http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

9 Damase, H. https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/edito/



Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 22.10.2020

Nesta reunião, pudemos avançar mais no trabalho epistêmico que estamos empreendendo sobre o conceito de gozo a partir do texto de Miller1 que escande o ensino de Lacan sob a forma de paradigmas.

O paradigma 5, nomeado “gozo discursivo” se assenta sobre os desenvolvimentos trabalhados nos Seminários de Lacan livro 16: de um Outro ao outro (1968-69) e no livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70), bem como no texto “Radiofonia”2 em que Lacan responde a perguntas na rádio belga e que também é transmitida pela rádio francesa.


Neste momento do ensino, Lacan concebe a relação “primitiva e originária” entre significante e gozo, de modo que a tônica de todos os desenvolvimentos sofre um deslocamento fundamental para o gozo em que o simbólico perde seu lugar de primazia, de anterioridade. Trata-se de uma verdadeira virada, que terá consequências importantes na clínica, pois o significante é o meio de gozo na medida em que ele causa gozo.

Lembremos da importância sublinhada por Freud desde o início de sua obra sobre a noção de uma vivência de satisfação que se inscreve no aparelho psíquico e a impossibilidade de vivê-la novamente de forma plena instaurando um movimento de repetição que visa algo que se perdeu estruturalmente. Temos a localização de um gozo e ao mesmo tempo, a inscrição de um objeto perdido desde sempre.


A marca que se perde e que inscreve o S1 promove o movimento da cadeia, cuja célula elementar pode ser apresentada como S1 – S2. De acordo com o que trabalhamos em reuniões anteriores, é pela via da operação de separação que temos o $ e o objeto a como os elementos que vão compor as fórmulas dos discursos que Lacan vai apresentar em seu Seminário.


É possível pensar que o tratamento do gozo pela via discursiva tem como condição o laço social, algo bastante privilegiado nos desdobramentos posteriores. Também cabe evidenciar a ideia de um ser prévio que se define como um ser de gozo e a equivalência entre sujeito e gozo, a ponto de Miller propor uma nova fórmula que seria: “o significante é o que representa o gozo para outro significante”.


Acrescenta-se mais dois pontos importantes neste paradigma que é a vertente do objeto a como “mais de gozar”, isto é, como uma possibilidade de recuperar o gozo perdido mas enquanto um suplemento, que preenche mas não por completo e que mantém a falta em gozar. Outro avanço se refere ao entendimento da repetição como repetição de gozo e que o acesso a este não se dá pela transgressão, como no paradigma 3 (o gozo impossível) e não se esgota pelo circuito pulsional, como no paradigma anterior nomeado gozo normal, experimentado pelo circundar as bordas do corpo. Teremos aqui um gozo que perdura e se torna constante pela via do sintoma, este passa a ser concebido como uma escritura do gozo.


Será pelo valor dado ao sintoma e a questão da posição do analista na condução do tratamento que podemos pensar a clínica e como ela se apresenta. A produção da falta em gozar por efeito do discurso capitalista, o circuito fechado onde o sujeito é consumido e o empuxo ao “Goza!”, sob a forma imperativa vinda do supereu são alguns dos elementos que podemos destacar para discutir a função do analista na contemporaneidade.


Para a próxima reunião, que será no dia 05.11.2020 às 20:00 hs, vamos trazer algumas pontuações sobre o paradigma 6: “a não relação” para finalizar o percurso sobre essa referência de Miller e retomar o editorial publicado no Zappeur para uma breve discussão.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 04.11.2020 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!

1http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

2 Lacan, J. (1970/2003). “Radiofonia” In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 400-447.

3Damase, H. https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/edito/




Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 05.11.2020



Nesta reunião trabalhamos o paradigma 6, de acordo com a proposição de Miller(1) que se constituiu como uma referência central em nossa pesquisa e neste momento, acompanhamos como o real entra na teorização via gozo no último ensino de Lacan.



Aqui verificamos um giro importante, na medida em que o gozo é tomado “como um fato”, portanto é dele que se parte: há gozo onde antes havia a estrutura da linguagem e a anterioridade simbólica em relação ao sujeito. Este paradigma se situa a partir do Seminário 20, Mais, ainda(2), onde Lacan reconstitui um outro aparelho conceitual em que a linguagem passa a ser derivada e não originária; ao inventar o termo lalíngua que é a fala prévia à ordem gramatical e lexical, a fala passa a ser concebida não como comunicação, mas como gozo e o lugar deste é sempre no corpo.


É neste Seminário que se abre uma perspectiva nova que vai funcionar como um limite ao “império da estrutura”(3): a não-relação transforma a noção de articulação representada por S1 – S2 e repercute sobre os conceitos que asseguravam a conjunção: o Outro, o Nome do Pai e o falo passam a ser conectores.


O ponto de partida é “há gozo” e que isto se relaciona unicamente ao corpo vivo. Temos, portanto, uma disjunção entre o gozo e o Outro que faz aparecer o Um. E isto nos conduz ao Um-totalmente só, separado do Outro e Lacan demonstra que o gozo é, fundamentalmente Uno, o que significa dizer que ele se abstém do Outro; serão trabalhados outras figuras do gozo do Um, além do corpo próprio, o gozo fálico – do solitário, masturbatório – o gozo da fala – blablablá – e a sublimação se insere nesta série. Passamos, agora, para o “reino do gozo do Um”(4).


Outro ponto que merece destaque é que o Um do gozo não tem representação, não se liga a nada e pode ser nomeado como S1 real, fora da cadeia e que a linguagem ao traumatizar, isto é, ao produzir uma perda, itera e insiste. A iteração, assim como a formulação do Um sozinho enquanto diferença absoluta vai trazer consequências para a clínica, como o valor novo dado ao sintoma, não mais como mensagem decifrável mas “como modo de gozar do inconsciente, na medida em que nos determina”, conforme a lição de 18.02.1975 do Seminário 22 RSI (inédito).


A inflexão proposta por Miller do primeiro ensino como marcado pelo “querer dizer” como cerne da função da fala e o reviramento para o “querer gozar” traduz um novo estatuto apoiado no conceito de pulsão – concebido como princípio e motor do falasser.


Uma pequena exposição sobre a noção de lalíngua(5) nos permitiu situar melhor os avanços no que diz respeito à noção de sentido e os efeitos deste sobre a interpretação analítica. Lalíngua é uma palavra forjada por Lacan para marcar que nela os elementos da linguagem que seriam discerníveis, distintos e elementares, pelo contrário, carrega em si algo de fundamentalmente equívoco, pois é anterior ao alfabeto e diz respeito aos jogos com a própria voz exercido pelo bebê e às palavras ouvidas com interferências, assonâncias, recortes singulares, enviesados que provocam júbilo, isto é, gozo. Por ser constituída “por aluviões em que se acumulam os mal entendidos, as criações ligeiras de cada um”(6), a interpretação deve ser feita ao contrário do sentido, mais como uma contenção do que um relançamento, ou seja, como um limite.


Na próxima reunião que será no dia 26.11.2020 às 20:00 hs, vamos fechar nosso ano de trabalho com a apresentação de uma vinheta clínica por Tatiana Vidotti.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 25.11.2020 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!


1 http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

2 Lacan, J. (1972-73/1985). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

3 Miller, Op. cit., p. 39.

4 Miller, Op. cit., p. 45.

5 http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_8/O_escrito_na_fala.pdf

6 http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_9/O_monologo_da_aparola.pdf, p. 10


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 25.03.2021


Iniciamos o trabalho em 2021, desejando as boas vindas a todos participantes que se interessaram em realizar este percurso de pesquisa no Ciranda-SP que seguirá, mais ainda, neste semestre em torno do tema da sexuação das crianças.

Articulado em rede com outros Núcleos no Brasil e demais países que se encontram enlaçados pela NRCereda, poderemos “dar mais uma volta” sobre o tema até o X Enapol (http://x-enapol.org/pt/) que vai se realizar em outubro de 2021. Nessa ocasião, partiremos para o novo tema já anunciado pelo Instituto da Criança (https://institut-enfant.fr/a-propos/) nas Jornadas realizadas em março último: Parents exasperés – enfants terribles.

Ao fazer uma rodada sobre as ressonâncias do VI Encontro dos Núcleos da NRCereda no Brasil “Os impasses do sexual e os arranjos da sexuação”, realizado no dia 11/03/2021, previamente ao XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, foi possível levantar algumas questões clínicas em que se destaca a posição do analista frente as modalidades contemporâneas do sintoma do falasser. “Nem guardião do tempo, nem libertador moral”1, como nos adverte Daniel Roy, caberá ao analista elucubrar um saber com a criança ou o adolescente que possa servir para sustentar suas invenções frente à “não relação sexual”. A ousadia do analista foi sublinhada como um elemento crucial no encontro com aquele que pode vir a construir seu sintoma no tratamento, assim como o bom uso da contingência que permite ao analista se deixar ensinar por esta clínica, conforme destacou Tânia Abreu em sua pontuação neste Encontro.

O texto produzido pelo Ciranda-SP para a composição da Brochura dos trabalhos dos Núcleos disponibilizada aos participantes permitiu acompanhar o nosso percurso de pesquisa “orientado pelo saber da criança diante do não saber sobre o sexual, atentos a questão da imiscuição do adulto na criança, os semblantes e o modo de gozo”2. A perspectiva de estudo teve “Os seis paradigmas do gozo”3 como um fio condutor, ao explicitar duas dimensões do gozo em que a diferença é sempre o ponto de partida, pois depende da linguagem: há homem e há mulher. A ideia de “livre escolha” desconsidera que a determinação vem do Outro e que a escolha diz de uma “insondável decisão do ser”, isto é, do inconsciente.

A teoria universal do falo vela, de algum modo, a irrupção do gozo para cada um e à medida que há uma perda de gozo, isto pode se significar via falo. Entretanto, cabe lembrar que nem todos se servem da significação fálica e neste caso, é possível pensar nas nomeações abundantes no contemporâneo sobre o gênero como uma via possível de tratamento. Enquanto suporte identificatório, o uso do “trans” ou outro significante pode tentar criar uma borda em uma sexuação possível diante do confronto com o gozo opaco que não entra no simbólico e que se apresenta como uma alteridade radical4.

A reviravolta teórica que marca a segunda clínica de Lacan parte de que “há gozo”, que ele é prévio à constituição subjetiva e o que está em jogo é como a criança faz laço com o Outro e como se distingue, considerando que há um gozo que não entra na linguagem. Temos assim, homem e mulher do mesmo lado, fálico, em que sempre há uma medida e Outro gozo, ilimitado, que Lacan formula via tábuas da sexuação.

A invenção de cada um será a de fazer com o que há, não sem as identificações e a fantasia. A clínica do falasser se apoia no corpo que se goza e no que é mais singular a cada um, seu modo de gozo, cuja via é o sintoma.

Para dar continuidade às discussões, propomos o texto publicado em Zappeur: https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/les-theories-sexuelles-infantiles-et-la-sexuation/ para a próxima reunião que será no dia 08.04.2021 às 20:00.

O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 07.04.2021 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!


1 ROY, D. http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/quatro-perspectivas-sobre-a-diferenca-sexual/

2 Eixo de pesquisa do Núcleo Ciranda-SP

3Miller,J.A.http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf

4 Degenszajn, R.D.; Gavioli, C.A.; Jacobo, S.R.: “Da diferença sexual à diferença absoluta” IN: Brochura dos trabalhos dos Núcleos da NRCereda no Brasil, 2021


Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 08/04/2021


Na reunião do dia 08/04/21, trabalhamos com o texto Les théories sexuelles infantiles et la sexuation, de Dominique Holvoet[1]. Ali, o autor retoma as teorias sexuais infantis, tais como foram formuladas por Freud em seu texto de 1908[2] e propõe pensa-las como uma resposta ao furo no saber acerca daquilo que Lacan denominou como “não há relação sexual[3]” que “possa ser escrita[4]”.

O termo sexuação depende da forma como o falasser habita seu corpo e não de sua anatomia. Diante da dificuldade em admitir e compreender que a diferença sexual não se inscreve no inconsciente, porque há apenas um significante para ambos os sexos, lembramos de Bassols, em um texto recentemente publicado em Lacan Quotidien: “o inconsciente se comporta como se houvesse apenas um sexo, e o problema é saber qual[5]”.

Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem, isso significa que é constituído por um sistema de oposição. Ocorre que “o significante do sexo [falo] tem a peculiaridade de não ter oposto[6]”. A sexualidade, por sua vez, não pode se estabelecer em um sistema de oposição binária de linguagem. Daí, a impossibilidade de dizer sobre a relação entre os sexos, expressa no "não há relação sexual[7]”.

Nesse sentido, podemos dizer que a identidade de gênero que vem expressar uma diferença não esgota a questão da sexualidade, uma vez que a chamada sexualidade diz respeito a modos de gozo e não de identidade. Esta tem relação com o significante e, assim, com o campo do Outro. O “gozo é radicalmente sem Outro[8]”.

E é então com Bassols, novamente, que conclui-se algo acerca da diferença. Não se trata então da diferença significante, mas de "uma diferença absoluta, sem nenhum Outro a se opor para defini-la. É o gozo do corpo, a própria sexualidade [9]

Abordamos ainda outra questão: as teorias sexuais infantis tem a função de mascarar, negar a castração, e justamente nesse ponto, a posição da mãe concernente ao gozo e ao desejo cumpre um papel fundamental na relação com a criança, quando se dá a descoberta da criança da castração da mãe. É toda a estória do ser, ter e a lógica fálica que se põe em andamento para o falasser quando há o consentimento da castração. Vale lembrar que se a castração é uma recusa ao gozo, é isso que possibilita que ele seja atingido “na escala invertida da lei do desejo[10]“ Sendo negado o gozo, abre-se o caminho para o desejo. A dialética do desejo na criança estabelece-se a partir das teorias sexuais infantis.

E, por fim, ainda com Dominique, nos perguntamos: como o Nome-do-Pai participa disso? “Podemos prescindir do Nome-do-Pai, mas com a condição de se servir dele...de torna-lo um instrumento[11]”. Longe da perspectiva de alguns que consideram ultrapassada a referência ao Nome-do-Pai, a psicanálise enfatiza-o em termos do uso instrumental, “possível, do semblante, para situar, com efeito, o sintoma em sua dimensão mais radical, singular, na dimensão sinthomática do laço com o gozo[12]”.

Destacamos também o caráter de pesquisa de nosso Núcleo, a partir daquilo que faz questão para cada um desde a infância, a saber, ‘de onde vêm as crianças?’. Essa curiosidade ganha o estatuto de enigma. E é Freud que formula algo bastante interessante para se pensar a pesquisa: “a própria questão é, como toda pesquisa, produto da urgência da vida[13]". Podemos considerar que acompanhar a leitura freudiana nos casos clínicos e as construções em análise pode nos servir de bússola para pensar uma pesquisa em psicanálise?

Escolhemos retomar alguns aspectos dos casos clínicos de Freud para seguir a pesquisa acerca da sexuação das crianças. Em nosso próximo encontro que será no dia 22.04.2021 às 20:00 hs, trabalharemos o texto “Le petit Hans: fille de 2 méres”, de Guillaume Libert: https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/le-petit-hans-fille-de-2-meres/

O link da reunião será enviado 15 minutos antes do início aos participantes inscritos. Novos interessados podem se inscrever até o dia 21.04.2021 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!

[1] Holvoet, D. Les théories sexuelles infantiles et la sexuation https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/les-theories-sexuelles-infantiles-et-la-sexuation/

[2] Freud, S. (1908) Sobre as teorias sexuais das crianças Vol. IX

[3] Lacan J., (1968-1969) Seminário livro 16, De um Outro ao outro. Jorge Zahar Ed: Rio de Janeiro, 2008

[4] Holvoet, D. op. cit.

[5] Bassols M., La différence des sexes n’existe pas dans l’inconscient, Lacan Quotidien, n 905, 22 décembre 2020 (www.lacanquotidien.fr).

[6] Holvoet, D., op.

[7] Lacan J., op. cit.

[8] Holvoet, D.,. op. cit.

[9] Bassols M., op. cit.

[10] Lacan, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo In: Escritos Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, p. 841

[11] Lacan, J. (1975-9176) Seminário, livro 23, O sintoma, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007

[12] Entrevista com Éric Laurent In Correio da Escola Brasileira de Psicanálise, n.63, julho de 2009, pg.14

[13] Freud, S. (1908) op. cit.

Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 22.04.2021


“O que a clínica freudiana pode nos ensinar sobre a sexuação das crianças?”

Esta questão foi escolhida como orientação para darmos continuidade à pesquisa do Núcleo Ciranda-SP. Depois de trabalhar as “Teorias sexuais infantis” para retomar a questão do que sabem as crianças e como elas trabalham em torno do não saber sobre o sexual, extraímos a importância da temporalidade em jogo na infância e o modo da criança fazer frente à castração materna.

A partir da apresentação do caso do Pequeno Hans, publicado em 1909, acompanhamos uma variante do que seria uma saída da sexuação sob a forma da assunção de uma posição feminina e de uma escolha de objeto heterossexual. Neste primeiro momento, seguimos os passos de Freud tomando as coordenadas do Complexo de Édipo e do complexo de castração. Pontuamos a eclosão da fobia, a hipótese freudiana sobre a angústia, algumas passagens e falas de Hans, já célebres por sua curiosidade e perspicácia, bem como toda a dimensão pulsional acentuada pelas elaborações conceituais daquele momento da obra.

Acompanhamos Hans empreender um trabalho próprio e decidido pela via da fobia e das construções fantasmáticas para tentar dar conta de simbolizar algo de seu gozo estrangeiro.

Vamos trabalhar na próxima reunião, que será no dia 06.05.2021 às 20:00 hs, o que podemos depreender do caso que nos faça avançar sobre a clínica orientada pelo segundo ensino de Lacan em que a dimensão do gozo prévio à linguagem adquire centralidade. E nos permite reconhecer no sintoma um arranjo possível do falasser sobre o que não pode se inscrever e se dialetizar através da linguagem, isto é, como se formaliza a clínica para além do Pai e do Édipo.

O link da reunião será enviado 15 minutos antes aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever até o dia 05.05.2021 através do email: nucleocirandasp@gmail.com

Até lá!


https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/le-petit-hans-fille-de-2-meres/



Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP em 06.05.2021


Nesta reunião, seguindo a proposta de aprofundar um pouco mais o texto de G. Libert1, trabalhamos alguns pontos do caso do Pequeno Hans à luz do segundo ensino de Lacan, procurando destacar os diversos deslocamentos que acompanhamos ao longo de seus seminários.


A ênfase sobre o lugar que a criança ocupa no desejo materno nos leva a considerar que ao ver a castração da mãe revelada, o Pequeno Hans entrevê a mulher cuja insatisfação se articula ao significante fálico que a torna um ser de falta. Afigura-se, assim a noção da “mãe devoradora” desenvolvida no Seminário 4 e a insuficiência em preencher esse furo faz com que Hans se dê conta de sua própria falta. Vale dizer que suas primeiras ereções e o nascimento da irmãzinha desestabilizam o lugar de falo imaginário e conduzem Hans a constituir um sintoma – a fobia de ser mordido pelo cavalo – e seu tratamento através de sucessivas construções fantasmáticas que lhe permitem chegar a uma solução peculiar.


Embora Hans tenha encontrado “a forma heterossexual típica de seu objeto”2, ao final do tratamento ele ocupa uma posição feminina como “filha de duas mães” e encontramos a mãe dupla sempre que a metáfora paterna se realiza com elementos femininos do sujeito. Ocorre também a instauração de uma “paternidade imaginária”, lembrando que a carência paterna em termos simbólicos não permite a metáfora paterna chegar ao seu termo, mas este caso nos ensina como é possível, diante desta ausência, construir uma derivação feminina do Nome-do-Pai sob a forma da avó paterna que faz a lei e torna-se suporte da autoridade.


Também pudemos nos deparar com o fato de que “a escolha do objeto e a escolha da sexuação não se confundem. Sua relação com o falo indica que Hans não está totalmente tomado na função fálica e se inscreve do lado feminino da tábua da sexuação”3. Entretanto, não sabemos mais sobre o modo de gozo de Hans – tema que muito nos interessa já que é o eixo que elegemos como pesquisa – pois a fobia desaparece.


Podemos afirmar, a partir dos desenvolvimentos no Seminário 20, que o falo passa a ser concebido como uma função que distribui do lado feminino e masculino sem utilizar a referência anatômica, mas os modos de gozo apoiado na lógica das fórmulas da sexuação e a diferença sexual só pode ser abordada pela singularidade dos modos de gozo, tal como orienta M.H. Brousse4 e para tanto a via privilegiada será o sintoma.


Finalmente, é na “Conferência de Genebra sobre o sintoma” que vamos encontrar a articulação que Lacan faz entre o sentido dos sintomas, aludindo ao texto freudiano, que só pode ser interpretado “em função das primeiras experiências (...) em que (o sujeito) encontra (...) a realidade sexual”5. E diferencia, discordando de Freud, que esta seja uma experiência autoerótica, sublinhando que em Hans suas primeiras ereções – e esse gozar primeiro se manifesta em qualquer um – “é o mais hetero que existe” (...). “E o gozo que resulta desse Wiwimacher lhe é alheio até o ponto de estar no princípio de sua fobia”5.


A clínica borromeana vai demonstrar os arranjos possíveis pela via da amarração pelo sintoma, que será o que enlaça os três registros fazendo a função do Nome-do-Pai, através daquilo que retorna nos sonhos, nos tropeços e nas diversas formas de dizer, “em função da maneira em que lalíngua foi falada mas também escutada em sua particularidade”. E Lacan define, neste momento, o materialismo da palavra (através do neologismo moterialisme, em francês, evocando mot = palavra) onde reside o ponto de apoio do inconsciente. É pelo banho da linguagem que a criança será atravessada, como uma peneira, por seus furos e que ao passar deixará alguns detritos com os quais poderá brincar e com os quais terá que se arranjar. E graças a isto, fará a coalescência da realidade sexual e da linguagem6.


Hans nos ensina como escutou “por causa dos cavalos” quando seus amigos brincavam com ele e gritaram “carros puxados por cavalos”, fazendo uma metonímia baseada na homofonia entre Wägen e wegen e como por uma contingência, fundamenta seu sintoma a partir dessa materialidade da palavra que serve como suporte. E é esse o modo como o sujeito responde ao sem sentido e ao que não pode ser representado do sexual, de forma única pela via do sintoma e concluindo, pela diferença absoluta de seu modo de gozo.


Na próxima reunião, que será no dia 20.05.2021 às 20:00 hs, vamos continuar investigando o que pode nos ensinar a clínica freudiana sobre a sexuação das crianças, a partir da discussão do caso da Jovem homossexual e para tanto fazemos uma sugestão de leitura7 para fomentar o debate.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes aos participantes inscritos. Novos interessados podem se inscrever através do email: nucleocirandasp@gmail.com


Até lá!


1 https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/le-petit-hans-fille-de-2-meres/


2 Lacan, J. O seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995, p. 396.


3 https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/le-petit-hans-fille-de-2-meres/


4 Brousse, MH. http://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/


5 Lacan, J. (1975) “Conferencia em Ginebra sobre el síntoma” IN: Intervenciones y textos 2. Buenos Aires: Ediciones Manantial, 2ª edición, 1991, p. 127 (tradução livre)


6 Idem, ibidem p. 129 (tradução livre)


7https://nucep.com/publicaciones/la-joven-homosexual-2/



Resenha da reunião do Núcleo Ciranda-SP de 20.05.2021

Dando continuidade à investigação sobre a sexuação das crianças tomando os casos da clínica freudiana e buscando construir articulações com o segundo ensino de Lacan, fechamos a discussão em torno do Pequeno Hans.


Destacamos como esta criança nos ensina sobre o saber que constrói diante da castração materna e a função do falo, assim como sobre a via do sintoma como uma resposta à carência paterna. Ao se servir de suas próprias elaborações sobre as teorias sexuais infantis, Hans chega a uma solução edípica que nos indica sua posição sexuada do lado feminino e uma escolha heterossexual. Seus “filhos imaginários” advém de sua paternidade também imaginária e nos demonstra que esta conclusão – temporária – permite o desaparecimento da fobia.


Tendo como referência a interrogação sobre a posição sexuada, modo de gozo e escolha de objeto, partimos para a discussão do caso publicado em 1920 por Freud, com o sugestivo título “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” em que teoriza como ocorre a fixação homossexual nesta jovem de 18 anos, trazida pelo pai para tratamento psicanalítico por sua “devoção” a uma mulher mais velha e de reputação duvidosa.


Discutimos a interpretação freudiana sobre o componente da “decepção” sentida por esta jovem, quando nasce um irmão no momento em que está vivendo um forte apego ao filho de um vizinho a quem dedicava cuidados claramente maternais. De acordo com Freud, é a partir disto que ela se afasta do pai e dos homens, rejeitando o amor ao pai e endereçando-se à Dama para mostrar “como se ama uma mulher”. Neste ponto se abre uma perspectiva de pesquisa neste caso e o modo como o feminino aparece como resposta e não como um enigma sobre o que é ser uma mulher, tal como acompanhamos no caso Dora.


Na próxima reunião, que será no dia 10.06.2021 às 20:00, vamos aprofundar um pouco mais a escolha de objeto e a questão das identificações sobre a Jovem Homossexual e procurar apontar elementos no caso Dora para desenvolver mais ainda, a sexuação com Lacan, considerando a fixação do modo de gozo e questão do gozo feminino1,2.


O link da reunião será enviado 15 minutos antes aos participantes inscritos. Novos interessados podem ser inscrever através do email: nucleocirandasp@gmail.com


Até lá!

1https://psicopatologia2.org/ancla/Ediciones/006/index.php?file=Elucidaciones/Desafio-pere-verso-en-la-Joven-homosexual-de-Freud.html

2https://institut-enfant.fr/zappeur-jie6/dora-enfant-sexualite-et-difference-des-sexes/

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