A Lógica Clínica Sem o Sentido Fálico

Cristina Drummond


Freud anunciou que a clínica psicanalítica teria que se haver com os restos irredutíveis do gozo e com a presença de um supereu feroz. O caminho de Lacan seguiu essa direção e se, inicialmente, ele construiu a estrutura da supremacia do significante com seu efeito de sujeito, ele terminou seu percurso formulando que todo mundo é louco.


Podemos tomar três axiomas como fundamentais no último Lacan: “não há relação sexual”, “há o Um” e “incautos do real”. A desordem na junção mais íntima do sentimento de vida é uma desordem que é válida para todos e indica uma foraclusão generalizada. Lacan tratou de colocar o gozo como central em sua orientação e buscou dar lugar à resposta do retorno no real do que é foracluído. Temos o que ele chama em seu seminário 21 de um “recomeço”, de uma valorização do imaginário como modo de abordar o real e de uma maneira nova de tomar o simbólico parasitário. Foram os impasses do real da clínica que trouxeram essas elaborações teóricas e elas também têm como consequência interrogar o psicanalista a respeito de uma nova posição na direção dos tratamentos.


Uma das maneiras de pensarmos essa clínica, que está inscrita no tempo e é orientada por esses três axiomas, é dizer que estamos diante da queda do falocentrismo, tema do próximo Encontro Brasileiro da EBP, que terá lugar no Rio, em novembro. Partimos da constatação de que o discurso do neurótico para se defender do real não é a norma no mundo atual e não nos basta, em nossa prática, enlaçar o sintoma, o inconsciente e o gozo fálico. Quando a metáfora paterna é inoperante, a libido deixa de se concentrar na significação fálica. Ela se dispersa em distintas localizações no corpo, provoca uma série de acontecimentos desordenados, e às vezes se concentra num nome que é índice do ser do sujeito, o que encontramos em Schreber com o nome de voluptuosidade da alma. Em nossa atualidade, o que vem no lugar da metáfora paterna inoperante são soluções que se distinguem da metáfora delirante e essas soluções tão singulares à estrutura generalizada de que todo mundo é louco nos fazem buscar as referências da lógica que orienta o nosso trabalho clínico.


Podemos tomar dois caminhos para abordar a questão da queda do falocentrismo, da queda do sentido fálico. O primeiro diz respeito ao que podemos aprender com o testemunho dos AEs sobre o final da análise e sobre o ponto em que, após o atravessamento da fantasia, algo do sentido que ela ofertava ao sujeito pode ser dispensado. Nesse caminho também podemos ter indicações sobre uma das maneiras de nomeação do gozo.


O segundo caminho diz respeito à clínica contemporânea que nos situa diante de sujeitos que não contam com a significação fálica, nem com o Nome-do-Pai como recursos para amarrar seus registros RSI. Trata-se da clínica das depressões, dos distúrbios alimentares, das psicoses ordinárias, da pulsão sem transferência, da relação com o gozo não mortificado, enfim, da clínica onde a relação com a palavra impõe a invenção e a nomeação. Não podemos nos esquecer de que o real se determina a partir de sua aversão ao sentido e se define por ser fora do sentido, tal como Lacan o diz, o real está expulso do sentido.


De qualquer jeito, um caminho não vai sem o outro, já que a psicanálise é uma só, e tomamos isso sem esquecer de que ela muda e de que nos esforçamos para estar próximos da experiência. Assim, vamos seguir um pouco pelo que podemos aprender com a clínica do final de análise tomando-a como orientadora da clínica que não conta com seus recursos, mas que pode ser iluminada por eles. Trata-se do esforço que Miller nos indicou de como começar a falar daquilo que já fazemos, isto é, de um trabalho de formalizar a lógica clínica fundada no pressuposto de que todo mundo é louco e na qual o estatuto da relação com o Outro é colocado em questão. É fundamental repensar o uso que podemos fazer da transferência, do corpo vivo, da palavra, da vociferação, da presença do analista, enfim, repensar a direção do tratamento fundada na não relação sexual, isto é, no real.


Muito me ajudou o seminário de Fabián Naparstek a respeito da pertinência da fantasia na clínica, seminário que ele orientou durante o ano de 2017 e que foi publicado no livro El fantasma, aún[1]. Ele parte do texto de Miller Do sintoma à fantasia e retorno, de 1982, para interrogar o lugar da fantasia nos tratamentos analíticos. Conta nesse seminário com a presença de alguns AEs, ele inclusive, para pensarem juntos essa questão.


A partir desse percurso podemos falar de uma clínica da fantasia, clínica do Outro e da significação fálica e de uma clínica do sinthoma, clínica sem o Outro, clínica que tem em um extremo Sade achatado e aprisionado por sua fantasia, embaraçado com o objeto a, e no outro extremo Joyce, desabonado do inconsciente, liberado do objeto a, paradigma do sinthoma. Joyce que soube fazer de seu próprio sintoma fora de sentido e ininteligível, o escabelo de sua arte. Temos de um lado a inércia da fantasia, e de outro a iteração do sintoma e, entre esses dois extremos, podemos inserir a multiplicidade de soluções das neuroses e das psicoses ordinárias.


Em seu texto de 2002, O inconsciente é político, Miller distingue por um lado a clínica clássica do Nome-do-Pai, que diz ser uma clínica masculina, com as três estruturas neurose, perversão e psicose e por outro lado a clínica do sintoma, clínica feminina do não-todo fálico, onde já não se trata das categorias rígidas, mas de uma clínica continuísta, orientada pela topologia dos nós. A clínica do Nome-do-Pai é a clínica da pergunta, do desejo e da identificação, isto é, é a clínica da fantasia que é referenciada no Outro.


Miller, nesse curso Do sintoma ao fantasma e retorno, diz na aula de 17/11/82 que “todo encontro com uma falta no Outro suscita a fantasia”. Uma outra indicação dele que Naparstek toma, se encontra num seminário muito posterior, de 2011, O Ser e o Um. Ali, na aula de 9/2/2011, Miller fala da função nodal da fantasia, dizendo que “Lacan promoveu a fantasia como aquilo que amarra, conjuga, imaginário e simbólico de maneira tal que é uma janela do sujeito para o real”.


Assim, a fantasia é uma defesa contra o real traumático, seja do desejo enigmático do Outro, seja de seu gozo, e uma matriz a partir da qual o mundo ganha sentido e se ordena para o sujeito. Há dois momentos em que Lacan fala de travessia da fantasia, tempo fundamental de mudança numa análise. O primeiro está no seminário 10, onde ele diz que o gozo não está destinado ao desejo. “O desejo não pode senão ir a seu encontro e, para encontrá-lo deve não apenas compreender como também franquear a fantasia mesma que o sustenta e o constitui.” (p.358) O segundo está no seminário 11, onde Lacan pergunta como pode um sujeito que atravessou a fantasia radical viver a pulsão. (p.281).


Os relatos de passe nos falam desse percurso na análise. Podemos ver neles uma queda do pai ideal e uma revalorização do pai da pai-versão. A queda do pai ideal é uma separação de um modo de gozo no qual o sujeito acreditou religiosamente. Resta o que o sujeito poderá fazer quando está advertido de sua fantasia, e depois de atravessar o lugar do pai como necessário, tal como pensava Freud, poder prescindir do pai tal como Lacan nos indicou no seu seminário 23. O caminho de Lacan nos aponta que a verdadeira identidade do Nome-do-Pai é a linguagem. E se podemos prescindir da função do pai é com a condição de colocar em função a linguagem, tal como Lacan a toma primeiramente como aparelho de aniquilamento do gozo e posteriormente, quando ele formula que significante e gozo andam juntos. Trata-se da possibilidade de articular algo do gozo com a palavra, mais na vertente da nomeação do que na do significante.


Assim, a clínica da fantasia é a clínica do problema-solução, clínica do final de análise e coloca em questão a relação do sujeito com seu gozo. A fantasia encobre o impossível da relação sexual e, tal como disse Miller no texto Do sintoma à fantasia e retorno, a fantasia explica a vida de um sujeito. Ela é o quadro sobre o qual o sujeito escreve sua história a partir de suas ficções.


A partir do atravessamento da fixidez da fantasia aparece algo de vivo, tal como podemos ver no testemunho de Silvia Salman[2]. Ela diz que sua análise foi do amor à pulsão, numa experiência de corpo, já que de início ela tinha um sentimento de estranhamento em relação a seu próprio corpo. Isso não foi possível sem a intervenção do analista. Primeiramente ela se articula a um ponto melancólico de sua mãe que fora marcada por uma forte rejeição de seu pai e ao qual o sujeito respondia com uma fantasia de desaparecimento. É o pai de Silvia que, com sua palavra, recupera sua potência e anima o corpo da menina com o significante “desenho animado”. Isso faz um enlaçamento do corpo com a palavra, enlaçamento simbólico-imaginário. Um semblante que condicionou uma modalidade de gozo que incidia no corpo e na posição sexuada que tinha a forma fantasmática de se sentir agarrada pelo olhar do Outro e de responder como fugidia, tal como ela nomeia seu sintoma histérico. Era um modo de se nomear no masculino e a identificava aos semblantes fálicos. O analista lhe diz: “você ainda não encontrou o significante desanimado”[3], interpretação que lhe permite ir se separando do sentido e do fálico. Um dia o analista, ao terminar a sessão a agarra e a poucos centímetros de distância dela lhe diz: “você me provoca isso”, o que a fez sair fugindo do consultório. Essa presença do analista em-corpo foi a condição necessária para o tratamento do gozo na análise. Ao agarrá-la e dizer que ela lhe provocava algo foi possível desarticular o circuito pulsional que fixava e determinava a repetição com a qual ela obtinha uma satisfação de um gozo masoquista. O analista corpo agrega a dimensão libidinal para a transformação de um corpo mortificado e esmagado no desenho em um corpo que pode alojar e suportar uma satisfação. Quando está fazendo o passe, Silvia sonha que está montando uma escultura com restos, pedaços de uma mulher. Para além da fantasia, para além do pai, surge a via de encarnar um corpo de mulher. A fantasia é a-sexuada e depois no sintoma se pode presentificar a questão da sexuação.


Assim temos a fantasia que articula algo dentro do campo do semblante e que se apresenta como janela e de outro lado o sintoma e seus restos inelimináveis, o que do gozo não pode ser significantizado e permanece. É importante também notar que o nome “desenho animado”, nome que decorre da fantasia, é muito distinto daquele que surge no final da análise e que amarra o corpo, o nome “encarnada”.


Essa mudança ocorre pelo trabalho analítico, mas também é uma consequência da intervenção do analista. Nesse sentido, é fundamental nos orientarmos pela mudança que Lacan introduz em seu ensino a respeito do desejo do analista e da transferência. O desejo do analista diz de um analista esvaziado de gozo e no último Lacan aparece a noção de analista vivo, com corpo e com um gozo próprio.


O testemunho de passe de Graciela Brodsky[4] também nos ensina muito sobre essa questão do analista como corpo vivo como fundamental para se poder ir além da fantasia. Ela organiza seu fantasma em três formulações: ser a única, ser a que fica fora da festa e ser aquela que arruína a festa. Ela conta que seu ponto traumático é situado numa festa da qual seus pais voltam e numa cena em que eles a assentam sobre um móvel enquanto têm um diálogo entre si com risos. É quando ela formula seu lugar fantasmático de “arruinar a festa do Outro” como modo de pisotear o desejo do Outro. Em um momento em que considerava que sua análise estava terminando ela vai a uma festa na ECF e pela primeira vez seu analista dançando aparece como vivo a seus olhos. Graciela formula que o analista foi um parceiro que enlaçou sinthomaticamente seu gozo de ser a única, posição que veio de sua condição de nascimento inesperado de uma mãe que evitava engravidar porque isso agravaria muito sua surdez. Essa predição médica não se confirmou e o sujeito se instalou nesse lugar único de tradutor e de falante diante desse Outro que não escutava. A transferência é um laço sinthomático que amarra o gozo do sujeito e seu corpo a um parceiro circunstancial. A cena da segunda festa é o que permite romper a ficção da fantasia e a partir daí o valor de gozo desse S1 se perde. Essa separação é o que possibilita o final da análise porque ali ela, além de sentir angústia, pode se dar conta de que o Outro goza sem a necessidade de sua voz e de seu auxílio. Isso libera a pulsão de seus usos fixos, deixando aparecer o aspecto sádico da pulsão. Há uma disjunção entre o real do analista e a fantasia da analisante.


Há uma disjunção entre a fantasia e o feminino. Na fantasia ela preenchia seu ser de sentido de dois modos. Por um lado através de um S1, ser a única e de outro com um complemento de ser por meio do objeto: ser a voz que se faz ouvir, que desperta, que divide e que arruína o desejo do Outro. O final da análise é uma separação que lhe possibilita sair da mesa das mulheres sozinhas e de se enlaçar amorosamente de um novo jeito. É essa aproximação do gozo feminino como gozo mais além do falo, opaco e fora do sentido que nos permite pensar a psicose ordinária e as situações clínicas atuais.


Bernard Seynhaeve[5] nos fala de uma maneira clara da mudança que Lacan introduz em suas formulações sobre a transferência. Ele diz que o último Lacan não se satisfaz com a destituição subjetiva e com a travessia da fantasia no final da análise. Isso permanece necessário, mas não suficiente porque o simbólico mente sobre o real. No final de seu ensino, Lacan vai depreciar o inconsciente transferencial. Vemos uma deflação do simbólico. Lacan percebe que a transferência freudiana não permite concluir uma análise e por isso ele vai abandonar o conceito de sujeito e valorizar o enlaçamento da língua com o corpo. O próprio conceito de inconsciente sofre uma mudança e se situa como o lugar da ausência de relação sexual porque não existe sentido sexual. O inconsciente, em seu trabalho, busca articular um gozo, pela via da repetição, que produz ao mesmo tempo uma perda de gozo. São os dois lados do que Lacan mostra no seminário 24 e no seminário 17. E temos a questão paradoxal de que o inconsciente transferencial se torna um obstáculo ao inconsciente real. O inconsciente transferencial supõe um saber, um S2, e valoriza a dimensão do Outro. Uma análise que se orienta para o real, visa separar S1 do Outro já que o S1 é, como diz Miller[6], a última estação diante do real.


É uma clínica que remete aos restos de gozo tal como Freud já o indicara, o que muda com a formulação de Lacan de que significante e gozo andam juntos e de que o gozo está, por isso mesmo, em todas as partes. Tal como ele formula no seminário 20, “todas as necessidades do ser falante estão contaminadas pelo fato de estarem implicadas com uma outra satisfação”[7]. Essa clínica que é balizada, segundo Miller, pelos conceitos de falasser, escabelo e sinthoma. São conceitos que implicam numa lógica e numa leitura da direção do tratamento e da posição do analista e que tem em sua base o “todo mundo é louco”.


Tal como disse Miller em 1996, em seu seminário sobre o Outro que não existe, inaugurava-se “a época lacaniana da psicanálise, a época dos não enganados, a época da errância”[8], em que todos já não se enganam mais nem com o Nome do Pai nem com a existência do Outro. Dominique Laurent nos diz que estamos na época do direito aos gozos não normativizados pelo pai, e onde se coloca a pergunta de se a identificação a um significante mestre permite um saber fazer com o gozo. Passamos, diz ela, “de uma sociedade centrada no pai a uma sociedade do parceiro sintoma, ou seja, do parceiro gozo” [9], que traz a necessidade de se renovarem as ficções jurídicas do casal assim como aquelas da parentalidade, onde cada um se encontra reenviado a sua relação com o Um do gozo.


Ela também diz que Lacan vai considerar que onde está o gozo e não apenas o gozo-sentido fálico “é a língua em seu conjunto que vai se encarregar dele”[10] e a metaforização do gozo na língua vai se fazer sem a ajuda dos Nomes-do-Pai, mas com os recursos do sinthoma, por meio de uma articulação entre gozo e significante, articulação ligada ao corpo. Assim o sexo é uma invenção a cargo de cada um situado em sua relação particular com o gozo, e isto por fora da norma edípica. Para além do falo o sujeito tem que se inscrever no nível do real do gozo em jogo.


Yves Vanderverken[11] nos diz que também é signo de nosso tempo a rejeição da metáfora em prol da metonímia. Isso tem impacto sobre o campo da palavra e de nossa prática. A vacuidade semântica da pornografia contemporânea nos indica como o campo do sexual também se vê desinvestido do registro da metáfora. Isso se reflete no sexo como invenção de cada um, mas também na reivindicação do direito ao acesso aos modos de gozo do objeto que não sofrem mais nem diferenciações nem hierarquizações. O ordenamento social pelos ideais do pai cedeu à pressão dos modos de gozo tomados em sua diversidade e as bricolagens parecem ter um uso mais importante do que o recurso aos discursos estabelecidos no tratamento dos gozos.

Não estamos nessa perspectiva do sinthoma na busca de novas categorias clínicas, mas buscando em cada caso a singularidade da distribuição e da amarração dos registros RSI. A formulação de que todo mundo é louco estende essa categoria a todos os seres falantes que sofrem da mesma carência de saber em que a sexualidade concerne. Vemos na clínica contemporânea dos LGBTI a busca das nomeações a partir de uma identificação com um tipo de gozo, nomeações a partir da categoria de gênero, que estão fora do Nome-do-Pai e que muitas vezes buscam eliminar a diferença e o real da não-relação sexual. Elas nos indicam uma tentativa de dispensar a construção fantasmática, deixando de lado as determinações simbólicas produzidas a partir do encontro do sujeito com o desejo do Outro, o que o Édipo exatamente vem nomear.


Aqui também o ensino do final de análise nos permite situar melhor a questão da nomeação. Milner introduziu as classes paradoxais que são aquelas que nomeiam as multiplicidades reais que não se deixam classificar em nenhuma outra classe e por isso mesmo resistem a fazer comunidade. Quando dizemos neurose, psicose ou perversão, enunciamos classes que permitem alojar sujeitos que apresentam a mesma estrutura psicopatológica.


É muito distinto, como nos diz Fabián Fajnwaks[12], quando nomeamos um sujeito a partir do traço que os neuróticos apresentam como insubstituível e singular. Quando a análise permite reduzir o sintoma ao modo mais particular de gozo que um sujeito apresenta, produzimos uma classe paradoxal. E se ainda assim chamamos o produto dessa operação de classe, é porque esta singularidade se estabelece a partir de um furo e de um impossível que vale para todos no nível do gozo havendo, portanto, um universal na origem dessa classe.


Assim, os gozos podem ser articulados a partir da diferença do todo e do não-todo proposto por Lacan e “a lógica presente na sexualidade feminina nos permite abordar cada sujeito como uma exceção em si mesma, quando se situa a partir de seu elemento insubstituível”[13]. Podemos dizer que as nomeações que decorrem da psicanálise são não segregativas.


Caminhamos pela via que Joyce nos abriu. Através de sua arte ele tomou a seu encargo o gozo num trabalho da língua que dispensa o sentido e a metáfora. A leitura dos místicos também nos ensinou sobre o gozo mais além do falo e do édipo, mais além das vias da significação[14]. Aqui a comunhão com Deus tem uma relação com o significante que não passa pela linguagem, que é apalavra e que Lacan nomeia de jaculação.


Eric Laurent[15], em sua apresentação no XI congresso da AMP em Barcelona em 2018, tratou da questão da transferência nessa clínica que tem uma orientação a partir da clínica das psicoses. Ele diz que na questão preliminar, Lacan introduz para além da foraclusão do Nome-do-Pai, o ponto em que o Deus-pai é apagado diante do Deus parceiro de gozo. O que começa a aparecer aqui no manejo da transferência é a falta de garantia do Nome-do-Pai. O Outro agora não é nem bem estabelecido, nem bem assentado, e a prática clínica também coloca em questão a suposição de saber já que é o gozo que está no centro da parceria.


Laurent aponta a ruptura com a suposição de saber ao analista e que este se reduz mais à posição daquele que segue o analisante em suas elaborações. O Outro tem agora o estatuto de rompido, não mais de Outro barrado, formulação que se referia à cadeia significante. Agora é a existência do Um que se afirma. Assim, o que o ensino de Lacan nos conduz a pensar é que ali onde está o gozo, e não apenas o gozo fálico (jouis-sens- gozo-sentido) é a língua em seu conjunto que vai se encarregar dele. Trata-se para o falasser, de se defender do real por meio da linguagem, de elaborar construções para orientar seu corpo que goza no mundo. O enlaçamento transferencial e com a palavra vai se fazer pela nomeação e não pela construção de cadeias significantes que permitam o retorno do recalcado e a localização de um sujeito e um objeto. Marie-Hélène Brousse retoma a indicação de Lacan de que encontramos no contemporâneo uma lei de ferro onde o Nome do Pai deu lugar ao nomear para, um novo lugar para a função de nomeação. Eric Laurent propôs em Barcelona que, como o real escapa de ser escrito, resta a possibilidade de nomeá-lo.


O emprestar o corpo do analista assim como seus semblantes de corpo afetado são meios de possibilitar ao sujeito se agarrar ao seu corpo e ao seu psiquismo. A vociferação também se faz índice do analista que tem corpo, e permite acrescentar à palavra o peso da voz.


O analista se faz parceiro de gozo diante do sujeito confrontado pela lalíngua e sua instabilidade em seus deslizes permanentes. É um uso análogo ao da metáfora delirante graças a uma ficção não-edipiana que se apresenta como defesa contra a disrupção do gozo. É necessário então o apoio do analista, para além da função da testemunha, do suporte, do secretário. Ele é aquele que faz verdadeiro o tropeço.


Cabe a nós, analistas, demonstrar a invenção da amarração pelo sintoma, de nomeações que dispensam o sentido, assim como viabilizar novas possibilidades de contenção da disrupção do gozo. Conseguimos demonstrar o simbólico, mas nosso pensamento erra ao tentar capturar o real. Somos incautos e nos deixamos enganar por um real quando buscamos a prova de que há algo necessário, que não cessa e não tem sentido e que é o sintoma cujos nomes soletrados pelos AEs são contingentes e não se deduzem de nada, “letras de um alfabeto desconhecido e que só vale para um”[16].





[1] Naparstek F., El fantasma, aún, Bs.As., Grama, 2018.


[2] Salman S.,”O mistério do corpo que fala” in: O que se passa? – análises lacanianas e outras histórias, RJ: Subversos, 2012.


[3] Salman S., “O significante desanimado” in: Opção lacaniana n. 61, SP: Ed. Eolia, novembro 2011.


[4] Brodsky G., “Parceiros” in: Opção Lacaniana n. 65. SP: Ed. Eolia, abril 2013.


[5] Seynhaeve B., “Le paradoxe du transfert” in: Hebdo-blog 138, 28/05/2018.


[6] Miller J.-A., « La passe du parlêtre », La Cause freudienne, n° 74, Paris, Navarin/Seuil, avril 2010, p. 119.


[7] Lacan J., O Seminário, livro 20, mais, ainda, RJ:Zahar, 2008, p.57.


[8] Miller J-A., El Otro que no existe y sus comités de ética, Bs.As.: Paidós, 2005, p. 11


[9] Laurent D., “L’ordinaire de la jouissance, fondement de la nouvelle clinique du délire”, in: La Cause du désirn. 98, Paris: Navarin, março 2018, p. 27.


[10] Laurent D., Idem, p.29.


[11] Yves Wanderverken , “Fi de la métaphore sexualisante” in: Hebdo-blog 132, 16 de abril 2018


[12] Fajnwaks F., Como vivimos hoy, Cordoba:Coll Grulla, CIEC, 2015, p.25.


[13] Fajnwaks F., Idem, p. 28.


[14] Cf. Baudini S., “La luz irresistible de la evidencia” in: Lacan quotidien n.778 ,30-05-2018


[15] Laurent E., Dirruption de la jouissance dans les folies sous transfert, in Hebdo-blog n. 133 http://www.hebdo-blog.fr/disruption-de-jouissance-folies-transfert/


[16] Brodsky G., “Sobre crentes e incautos” in:Opção lacaniana n.75/76, SP:Eolia, maio 2017.



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