Clin-a Ribeirão Preto

Ensino de Lacan: Leitura e investigação sobre o Seminário XVIII

Conferência de abertura – 26 de março de 2022

Resenha por Carolline Rangel 

O obscuro na escrita

por Flávia Cera (EBP/AMP)

Apresentação

Inicia-se a conferência de abertura das atividades “Ensino de Lacan: Leitura e investigação sobre o Seminário XVIII”, pelo Clin-a Ribeirão Preto, em modalidade virtual. A transmissão se inicia com a fala da psicanalista Flávia Cera sobre o Obscuro na Escrita.

Nas redes sociais não há lugar para a rasura

Flávia inicia sua fala articulando poesia, psicanálise e redes sociais, pontuando que nunca se leu e escreveu tanto como na atualidade. Pondera, entretanto, que há uma tendência em associar a escrita à transparência, expressão e comunicação, como modo de dar forma aos pensamentos e expressá-los.

Acrescenta que uma das formas principais do uso da língua hoje nas redes é o que chama de “lacração”, o que não configura de fato um espaço para o debate: há bolhas nas quais cada um compõe seu mundo, e mesmo quando é a própria psicanálise o tema desses debates (Flávia cita a “democratização da psicanálise” como um debate recente em 2022), é a “lacração” que está em jogo. Traz uma anedota acerca do tema, e o que se verifica é que não é possível o diálogo a partir da “lacrada”, que pode deixar sem palavras. Alerta em sua fala sobre a virulência da lacração que cega o debate. Pondera que a psicanálise talvez possa (ou deva) se preocupar.

Nas redes sociais, segundo ela, os algoritmos funcionam, e a partir deles, cria-se uma bolha de identidade e não se fala além do que se acredita ou se identifica. Não há lugar, portanto, para o não saber, o traço e a rasura.

Flávia propõe, a partir de tais considerações iniciais, “pensar a opacidade na escrita a partir do uso ou da prática da língua que faz a psicanálise, e a poesia em seu ponto de ruptura com a representação que apontam então para uma abertura.”

 Entre psicanálise e literatura, um litoral

Flávia retoma Freud em sua citação sobre o poeta ou o artista precederem o analista, já que anunciam um saber sobre o mundo que só depois vai se ver que era um “saber não sabido”. Relembra que este saber não sabido é justamente a matéria do próprio inconsciente. Destaca que não se trata somente de uma questão de preceder enquanto saber, mas das possibilidades que a arte faz ao abrir campos do possível: tecer o impossível.

Ela segue com algumas questões: De que seria feito o literário? O que é o escrito para o Lacan? Aponta que Lituraterra é sobre isso, mais que uma resposta sobre tais questões em torno do escrito, e sim uma pergunta de Lacan sobre isso. Outras questões são pensadas:  O que se escreve e o que não se escreve? Entre a psicanálise e a literatura, qual é a conversa possível? Adianta que a relação entre esses dois campos não seria de equivalência ou de continuidade. Traz a referência a Lacan, em Lituraterra, retomando que a conversa entre psicanálise e literatura talvez seja como como um litoral: lugares heterogêneos que se bordeiam e se encontram intimamente sem se confundir. Aponta que ambas, literatura e psicanálise, teriam como eixo comum o trabalho com a linguagem, com a língua, que se articulam além do entretenimento e da terapêutica, embora pontue que possam eventualmente ter essas duas funções.

Afirma que lhe interessa o ponto de intromissão na ordem do mundo com seus elementos que de certo modo, estão sempre à margem, que abrem outras possibilidades de vida, e “outras formas de habitar a língua, o corpo, a memória e o impensável”. 

Poesia e psicanálise: insignificantes

Flávia retoma Lacan em sua afirmação de que a psicanálise seria uma prática sem valor. Ela encontra um autor que dialoga com suas questões, Christian Prigent, que diz que a poesia é insignificante, e escande o in-significante. Ela lê este ponto em Prigent como um encontro, uma ressonância à ‘prática sem valor’ de Lacan.

Pensa que a poesia e a psicanálise são insignificantes, já que trabalham com os insignificantes, e guardam seu lugar de resto já que prezam pelo resto. Pondera que ambas “trazem à cena uma experiência tensa entre a opacidade e a clareza, entre sentido e não sentido, e permitem um modo de estar na vida que sustenta e suporta o que não se pode escrever.” Seria então um lugar do ilegível, da inexistência da relação sexual, um impossível da equivalência que remeteria a uma relação com o todo. Lembra que não há uma espécie de origem que uma vez escrita, viria a esclarecer o sem sentido que perturba.

Ela comenta que Prigent começa seu livro “Para que poetas ainda” (antologia de ensaios lançada no Brasil em  2017 pela Ed. Cultura e Barbárie), com uma análise que divide o mundo em dois, trazendo uma radical ausência de sentido no mundo que tem como respostas por um lado, a ciência positiva, e por outro, a religião. Flávia refere que seria uma busca pela objetividade e pela garantia, ou ainda, duas formas de tentativa de escrever a relação sexual, dar sentido e um saber determinado de antemão, oferecendo consolo assim para o sem sentido da vida.

Abre ainda a questão: que lugar haveria para um saber pouco estabelecido, e que não traz nenhuma clareza apaziguadora? Situa a psicanálise ao lado da poesia, e ambas diante da angústia da língua, e que estariam às voltas com as questões perturbadoras, sem, no entanto, pode-las responder universalmente, socialmente, mas sim, eticamente. Sobre o responder eticamente, Flávia traz como referência de leitura a filósofa Donna Haraway. Cita o livro “Ficar com o problema” (no orginal, Staying with the trouble, – já traduzido para o português), como referência de leitura sobre este ponto.

Prossegue propondo que diante da opacidade da vida e do mundo, poderia usar a língua como uma forma de furar a ordem do mundo. A língua como uma espécie de aposta de que a cada encontro com as determinações que impelem a um fechamento do mundo, sendo possível então a partir da língua, esgarçá-lo, introduzindo um resto, um vazio.

No sem sentido do mundo, aponta, espera-se de qualquer coisa, e não menos da literatura e da psicanálise, uma cura para a vertigem, uma organização frente ao insuportável do real. Flávia se pergunta, entretanto, se tais análises, inclusive as de Prigent, e incluindo Freud, não soariam um tanto fora do mundo, especialmente diante dos abismos das desigualdades sociais, raciais e de gênero num país como no Brasil. Como pensar a insignificância sem perder de vista a realidade inequívoca da fome? Ela responde que além de possível, este seria um movimento necessário. Pensa ainda qual seria a função de escrever poesia; a função social da escrita; a função analítica da escrita, e ainda: por que ainda, a psicanálise?

Colocar em contingência o que se via como destino

Na vastidão, o céu da noite; de Itamar Vieira Júnior, é o conto escolhido por Flávia para trabalho, e traz a partir dele, a história de Rita, uma mulher negra, professora universitária, que pesquisa os buracos negros. Sua tataravó, Bárbara, tem um nome que equivoca: a barbárie, bárbara, a que não estaria na civilização. Rita escreve a história de Bárbara, a retira do seu sem sentido. Flávia menciona que aqui a escrita tem dupla função: a escrita de uma vida, cujo destino se encontra determinado, e que encontra uma outra forma de se inscrever; e o estabelecimento de um texto perdido no arquivo da história do mundo. Segundo Flávia, trata-se de uma dupla função que representa, mas também apresenta o irrepresentável. É um trabalho da língua, da memória, das peças soltas, e por isso mesmo, tem um efeito de verdade.

Flávia retoma uma questão de Fabíola sobre como seria tomado o impossível de escrever. Menciona um trabalho com Marcus André Vieira sobre esse lugar do real da impossibilidade da escrita que comportaria a própria escrita.

Bárbara, personagem de Itamar, é feita das ruínas da história familiar, também feita da história de um país e um povo. Traz como referência Walter Benjamin, filósofo alemão, e suas teses para pensar o conceito de História. “Se não os inimigos não cessarem de vencer, nem os mortos estão em segurança”. Benjamin critica o historicismo, a fixação de uma versão da história que é sempre a dos vencedores. A história oficial que conforma tudo ao que sempre foi. Isso seria Freud, Flávia conclui: a história não seriam os fatos, mas as interpretações dos fatos. As marcas deixadas na vida de cada um. Flávia lembra que Benjamin lia Freud, e retoma um ditado em iorubá, que aparece no documentário AmarElo, que Emicida recupera na abertura: “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que so jogou hoje.” Flávia pensa nesse trecho o ponto de insistência da escrita.

Ela reflete a importância de sobrepor no presente esse passado que não cessa de passar, que não cessa de não se escrever; e articulá-lo é colocar justamente a contingência em jogo no que se via como destino. Daí a importância, por exemplo, de Rita e Bárbara de Itamar. Flávia prossegue afirmando que enquanto houver gestos que constituam novos pontos de fuga, novas leituras, como é o gesto de Itamar, também de Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo; será possível abrir arquivos, para que ressoe no presente algo que é parte do passado: as vidas não contadas, a não ser com números, para que se acrescente novos nomes, novos significantes, diz ela.

Segue a refletir que essa contingência se faz importante porque as vidas nos atravessam, nos convocam, fazem parte do nosso mundo. Não se trataria, portanto, de um mecanismo de empatia e identificação (somente), e sim porque implica e compromete aqui e agora a transversalidade das vozes do tempo, do espaço e dos corpos que povoam o presente. Segundo Flávia, nisso a poesia e a psicanálise têm a mesma marca: um amor pelo presente. Nem a nostalgia, nem a previsão: justamente essas forças que vão se encontrar no presente. O instante; como o tempo de uma sessão analítica.

Em uma análise, uma contra-história que inclua o impossível

Saidiya Hartman é outra indicação de leitura que Flávia menciona. Saidiya é teórica, professora de literatura e autora de dois livros publicados no Brasil. Um deles é o  “Perder a mãe” (em inglês: Lose Your Mother: A Journey Along the Atlantic Slave Route – Farrar, Straus and Giroux, 2007). A autora possui também um texto que está disponível traduzido no Brasil, “Vênus em dois atos”. Ela propõe um método, uma fórmula, que chama de “fabulação crítica, que é um trabalho de criação. Vênus é uma mulher descrita nos livros contáveis da escravidão, e que sofrera atrocidades e violências. Saidiya propõe uma fabulação crítica para dar outro destino a essa história. Mas antes de fazer isso, coloca algumas questões: quais são os limites do arquivo? Quais os limites da memoria? Dos fatos narrados? Quais os elementos da verdade da ficcionalização? Que se pretende com isso? O que é a história, em suma, é a pergunta que permanece aberta, sobre o irrepresentável. Como a gente pode representar?

Flávia afirma que a fabulação crítica seria um método de interferir no presente para mudar algo no futuro. A escrita, então, seria um acontecimento. E sobre a pergunta difícil sobre o irrepresentável, Flávia lê como uma variação do “impossível de escrever”. Faz uma reflexão sobre um confronto ético porque quando se representa o irrepresentável, há um duplo risco. Ou se deixa no esquecido e inimaginável, ou se coloca nas malhas de uma representação, em que a assimilação pode gerar outra coisa. Segundo ela, Vênus no texto de Hartman ganha mais que uma história, passa a ser um dos nomes da História. Um nome de uma vida que condensa e perpassa, passado, presente e futuro. Flávia lê que também é assim com Bárbara. Não muda a história terrível e dolorosa, mas pode alterar alguma coisa nesse mundo, nesse tempo que é o presente.

Menciona que talvez haja um pouco de fabulação crítica no que se faz em uma análise: a partir da presença do analista, mais do que contar uma história, seja talvez contar uma contra-história, um contra-modelo que inclui um impossível. Dessa forma, a análise representa, lê e escreve tantas coisas que são irrepresentáveis para um sujeito. O trabalho com a angústia, por exemplo, é ineliminável. Lembra que por outro lado, é uma prática que conserva um vazio irrepresentável. 

As Supernovas, a suspensão do tempo, a matéria da vida  

Flávia trabalha a diferença entre memória e reminiscência a partir de Lacan (O Seminário, Livro 23) e Miller, em seu curso “O último ensino de Lacan”. Ela tenta fazer uma tentativa de separação entre ambas: “A memória se lê, a reminiscência se escreve.” 

A memória é diferente da história, sempre aumenta ou constrange um ponto da vida, e pode ser contada com algo a mais ou a menos.

A reminiscência, por sua vez, não se encadeia. Flávia lembra que essa é a tese e a proposta de Lacan e que Miller vai trabalhar também. (Ele trabalha muito perto da alucinação, que entretanto pouco tem a ver com a psicose). É justamente como elemento fora do texto, a ruptura do texto. A reminiscência é a interrupção do texto, assim como a alucinação. Não guarda relação com o Outro, ou com a História. Nunca está muito bem situada, enquadrada na trama. Talvez se pareça mesmo com as supernovas: uma irrupção. São imemoriais, estão escritas na memória, mas são inesquecíveis. Estão fora do tempo, e suspendem o tempo para marcá-lo de outra maneira. E segue com a questão: não seria também essa a lógica do acontecimento?

Para Flávia, a escrita da história de Bárbara é um ponto de ruptura com o texto oficial da História. Ela sempre será um tanto opaca ao sentido. É o que permite essa brecha que resiste à assimilação. Um ponto da constelação muito difícil de situar, mas que não há como ignorar. A importância da prática da língua, para Flávia, estaria aí: nos modos de usar a língua para dizer ou escrever, perturbar os arquivos da História, fazer alguma coisa com o irrepresentável, com o inacessível que constitui a matéria da vida. Nesse ponto ela relaciona a escrita que leva em conta o que seria impossível de escrever, justamente porque ela abre para o impossível à contingência. Seria este, então, o movimento da escrita. Para Flávia, isso leva em conta o corpo.

O lugar da psicanálise é um lugar de hesitação

“A poesia é a máxima hesitação entre som e sentido”. A definição clássica de Paul Valéry sobre a poesia é retomada por Flávia para construir o corpo articulando-o com a escrita. Menciona que quando Lacan fala sobre a escrita, também entra uma presença  maior, modificada, da ideia de corpo, porque toma para si a hesitação, e a hesitação é mais importante que o som e o sentido, porque é na hesitação que se dá toda a psicanálise: entre significante e significado, entre significante e gozo, entre representação e irrepresentável. “O lugar da psicanálise é de uma certa hesitação”, conclui.  

Prossegue em sua fala a pensar a psicanálise como um uso da língua que destoa ou que tem algo a dizer sobre o irrepresentável, sobre o sem sentido, e assim, ele ressoa também em um corpo politico, no esforço de produzir uma outra língua, enlaçar justamente um corpo.

Entre estranhamento, corpo e texto: o encontro

Flávia segue a pensar texto, encontro, corpo e estranhamento. “Há texto quando há encontro.” Menciona que tal formulação é desde Lacan. Vai se produzir um texto a partir do choque do significante no corpo. Só há texto quando há encontro.

Ela pensa este encontro a partir da obra de Marguerite Duras sobre a escrita e a solidão, e menciona que lê em Duras justamente um encontro: da autora com a solidão, ou seja: é, também, um encontro.

Há corpo quando há encontro. Flávia menciona que esse ponto também é a partir de Lacan.

E há encontro quando há estranhamento.

Ao deixar as malhas da identificação, e na aproximação do incômodo, só assim seria possível experimentar os efeitos de um texto. Os efeitos da leitura de um texto. Os efeitos de verdade que produz um texto. É assim que Flávia articula essa experiência: algo que ressoa do corpo e no corpo, perto do tremor e do abalo. Das Unheimliche, o infamiliar. Para ela, é o choque do texto com o corpo que cria, no gesto da leitura, no corpo do texto. Este corpo não corresponderia à linguagem, mas à língua, ou lalíngua, inscrição primeira, aquilo de mais íntimo e mais exterior. O ponto sem articulação que passa por fora do sentido e se escreve em um corpo, um texto do corpo, essa estranheza intima, alteridade radical, lugar de hábitos e habitações.

A hipótese dela é que isso se daria desde o Estádio do Espelho, já que a criança se observaria ali com júbilo, apresentada a um corpo inteiro, nessa unidade corporal. Uma unidade corporal que seria livre da angústia do corpo (fragmentado) e que a introduziria na angústia da língua. Flávia lembra que “angústia da língua” é uma expressão de Prigent.

Comenta que há no corpo uma inscrição que repercute como resultado de choque de um significante no corpo. Trata-se mais precisamente de uma incorporação, e ao mesmo tempo, de corporificação, como é possível ler em Radiofonia, de Lacan: “O primeiro corpo faz o segundo por se incorporar a ele, por se incorporar nele. Há no primeiro corpo, o corpo do simbólico, a linguagem, que é corpo sutil, mas é corpo, que desnaturaliza o segundo corpo, e este por sua vez, incorpora o primeiro. É a partir desse acontecimento, dessa incorporação e corporificação, desse encontro, entre essas palavras e seu corpo, que alguma coisa se esboça” Lacan diz.

Flávia aponta que os traços e as marcas desse significante repercutem no corpo vivo. O sujeito fala com o seu corpo desse acontecimento. Ou fala com seu corpo neste acontecimento. Desse encontro, nesse encontro. Mesmo que dele não se produza nenhum sentido, mesmo que nele não haja sentido algum, mas um campo de possibilidades para sua criação. Esse é inclusive o motor da fala. O sentido sempre guarda o não sentido. O corpo em que no contorno de seus furos, textos serão escritos a cada vez que houver encontro. O corpo que será um texto a ser lido, uma fabricação metamórfica e metafórica, que tem como motor o que não cessa de se escrever.

Transformar o descompasso em um passo que se arrisca  

Flávia se encaminha para o fim da conferência, trabalhando o corpo nesse encontro que é sempre falho e sempre fadado ao fracasso, uma vez que corpo e fala, corpo e língua, ser e corpo, corpo e imagem, coexistem, mas não coincidem. As não coincidências e não equivalências são apontadas por Lacan desde o Estádio do Espelho, quando apontava que a linha de ficção do eu e a realidade só se uniriam assintoticamente, ou seja: que não haveria correspondência ou equivalência.

Ela recorda que corpo e língua nunca coincidem, e nunca se encontram sem um resto, já que a identificação não consegue ser toda e completa. E como assinala Miller, em Biologia Lacaniana, é justo na falha dessa identificação entre o ser e o corpo, é mantendo que o sujeito tem uma relação de “ter” com o corpo, que a psicanálise arranja seu espaço. Lembra ainda que fazer essa diferença emergir, “transformar esse descompasso em um passo que se arrisca, um passo de sentido que ruma ao sem sentido que toma o corpo e que toma corpo é o trabalho da psicanálise.”

A opacidade da escrita é o próprio movimento da escrita

Flávia prossegue apontando que quando Lacan dá ênfase à escrita é justamente para pensar como viver a vida na angústia da língua, e mais: como viver junto, a partir desse ponto irresolvível, o “inescritível” como solução final. A opacidade da escrita, afirma, é o próprio movimento da escrita. Se é pela contingência que algo se escreve, é porque um impossível no encontro aconteceu, ou seja, a escrita como acontecimento instaura um antes e um depois e traz consigo a presença de um vazio, em uma revolta, em uma re-volta, que retoma o indecidível e a indeterminação mantendo um campo aberto.

Ela afirma concordar com Prigent de que seria essa uma escolha pela democracia; entender a poesia como uma revolta, a psicanálise como uma revolta da língua, em que  as indeterminações, a recusa de um sentido dado de antemão, possam aparecer como um campo de forças e que não serão sempre os mesmos corpos, a mesma cor ou o mesmo gênero que sofre no mundo.

Conclui sua fala enlaçando que alguma coisa da língua, da insignificância do que um psicanalista faz e da insignificância que se preza como algo que possa manter o coração democrático, pulsando, é dessa tarefa da escrita da psicanálise e da escrita da poesia como prática analítica que não se pode abrir mão.

Flávia encerra sua fala abrindo espaço para questões dos participantes.

 

Resenha por Carolline Rangel, 02.04.2022
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