BOLETIM INFORMATIVO EXTRA - Dezembro de 2008

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EDITORIAL

A razão deste número extra de dezembro do Boletim do CLIN-a é para levar a todos os interessados as informações sobre a nova proposta de cursos a partir de 2009, que apresentamos na seção Notícias.

Em Entrevista o Presidente do CLIN-a, Luiz Fernando Carrijo da Cunha, comenta a nova proposta de cursos para situar a sua importância epistêmica e política.

Apresentamos uma resenha do que Aconteceu na V Jornada de ensino e pesquisa do CLIN-a, que teve como convidado  Iordan Gurgel - Membro da EBP-AMP e atual Presidente da EBP - cuja presença prestigiou  nossa atividade com importantes comentários.

Como eco dessa nossa última atividade do ano, Canto da biblioteca convida à leitura de dois trabalhos de alunos que foram apresentados nessa oportunidade.

Em nome de toda a equipe do Boletim do CLIN-a desejo a todos boas festas e um ano novo com muitas realizações.
Este boletim reaparecerá em fevereiro de 2009.

Blanca Musachi

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ACONTECEU

Aconteceu na sede do Clin-a_SP, no dia 13 dezembro de 2008, a V Jornada de Ensino e Pesquisa do Clin-a.
Tivemos a preciosa presença e contribuição de Iordan Gurgel _ Presidente da EBP_ que já nos coloca uma questão em relação à transmissão da psicanálise em sua fala inicial: “Como ensinar o que não se ensina?”. Além de debater trabalhos de alunos, nos trouxe uma reflexão sobre o ensino nos institutos, seções e delegações de psicanálise e suas particularidades.
Alunos de São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto e São José dos Campos puderam se arriscar a escrever trabalhos e colocar em evidência que “ensino” em psicanálise, se faz no particular de cada um _ caso a caso.  A composição impecável das mesas, trabalhos instigantes alavancaram nossa conversa, e mostraram que essa é uma possibilidade de tangenciar e observar o resultado de um, dois ou três anos de ensino.
Questionamentos, elaborações e convites para instigar nosso estudo e manter a psicanálise viva não nos deixou colocar um ponto final nos trabalhos. Continuaremos! Até 2009!

Alessandra Pecego

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ENTREVISTA

O Boletim entrevista Luiz Fernando Carrijo da Cunha, diretor presidente do CLIN-a

B - Sabemos que a formação de um analista se dá, desde Freud, através de sua prática clínica, da supervisão desta prática e da formação teórica. O Clin-a oferece um curso àqueles que operam clinicamente ou pretendem fazê-lo, portanto apresenta-se como uma das partes deste tripé. Você poderia comentar a transmissão feita no Clin-a  e sua relação com a formação do analista?

LF - O CLIN-a pertence a uma rede de Institutos do Campo freudiano e, enquanto tal, opera no sentido de transmitir os conceitos já estabelecidos na psicanálise pela vertente do “saber exposto”. Essa transmissão se dá através de diferentes ferramentas que nos são disponíveis como Cursos, Pesquisas e Investigação, mas de modo a sustentar um saber elaborado. Com isso, estou delimitando a função que exerce um instituto na formação do psicanalista que, em última instância, requer a inscrição de um desejo sustentado a partir de outros pontos além do estudo teórico-conceitual. Sem dúvida que podemos testemunhar efeitos de formação no Instituto mas, tais efeitos só podem ser formalizados e garantidos a partir de uma relação com o lugar destinado a receber esse efeito: a Escola.


B - O curso foi alvo de discussão no Conselho Técnico do Clin-a e passará por mudanças significativas a partir do próximo ano. O que motivou estas mudanças e qual formato o curso terá?

LF - O que motivou tais mudanças foi, em primeiro lugar, a necessidade de construir um ensino que possa propiciar uma dinâmica na formação teórica um pouco mais viva e que possa dar uma maior sustentação àquele que pretende buscar uma formação em psicanálise; em outros termos, nossa pretensão é minorar a informação e dar maior ênfase à formação, destacando o que está em jogo nessa empreitada.

O curso funcionará num formato composto por uma grade curricular com disciplinas específicas, distribuídas em três ciclos: o básico , que deve ser completado com oito disciplinas, o clínico que é composto por quatro disciplinas além do ciclo avançado, que não terá uma relação direta com os dois anteriores. O ciclo avançado foi pensado para dar continuidade e aprofundamento ao ensino teórico.
Ainda no mês de dezembro será divulgado o material com o conteúdo a ser oferecido no ano de 2009.

 

B - O Clin-a mantém cursos em outras cidades do Estado de São Paulo, com realidade e demandas diferentes da sede. Como se dá esta relação?

LF - A partir do que já expus na primeira pergunta, o ensino aqui não se faz a seu próprio risco; ele depende do percurso e da relação com a psicanálise de cada um dos que ensinam. É claro que não estabelecemos essas relações a partir de contratos burocráticos mas seguimos a própria estrutura que engajou essas cidades ao trabalho do CLIN-a, ou seja, a transferência não apenas de trabalho, mas também com o modo de pensar uma instituição como essa.

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CANTO DA BIBLIOTECA

Na V jornada de ensino e pesquisa do CLIN-a realizada no dia 13 de dezembro, foram selecionados 16 trabalhos de fim de curso dos alunos para serem apresentados e debatidos. Nesta oportunidade o Canto da Biblioteca oferece seu espaço para a leitura dos trabalhos de Cecília Nascimento e Marcelo Galletti Ferreti, alunos do segundo ano.

Blanca Musachi


Gozo e repetição em análise

Cecília Cassiano Nascimento

O tema questionado neste trabalho foi levantado a partir de dois atendimentos realizados em meu trabalho na instituição pública de saúde. O primeiro deles, trata-se de uma jovem de 19 anos que se tornou cega e surda após o segundo ano da morte da mãe, vítima de acidente vascular cerebral, também cega e surda. Sua queixa sustentava-se na incapacidade dos médicos de descobrir sua “doença” e na descrença de seu caráter psicossomático. No segundo caso, uma mulher de 55 anos, cujo filho havia sido preso injustamente, queixava-se sobre a ineficiência da polícia e sobre a sua incapacidade de agir frente à situação. Em ambos os casos, parecia haver uma necessidade constante em retomar os motivos de sua infelicidade e de lamentar o quanto esta condição em que se encontravam era inaceitável e insustentável. Interessada por essas questões, levei o caso em supervisão e me deparei com o que se tornou o tema deste trabalho, a saber, Gozo e repetição em análise.
Lacan, em 1964, ao tratar dos conceitos fundamentais em psicanálise, aborda o conceito de repetição articulando-o ao inconsciente. “A constituição do campo do inconsciente se garante pelo wiederkehr”(Lacan, 1964, p. 50), ou seja, pelo retorno. O discurso inconsciente evidencia que os significantes cavam os caminhos pelos quais o sujeito insiste em retornar e, dessa forma, percebe-se como o trauma de desloca ao longo da vida do sujeito. Este repete de forma inexorável e desconhecida aquilo que lhe é traumático. Essa insistência em retornar sugere que a repetição funda-se em um retorno do gozo. É o gozo que necessita de repetição. Nessa repetição, de acordo com Lacan (1969-70), produz-se algo que é defeito, fracasso. Há uma perda e, portanto, há desperdício de gozo.
Mas de que se trata o gozo? De acordo com Miller (1997), o gozo aparece em relação ao desejo, mas não é uma função dialética, pois não tem relação com o Outro. O desejo é sempre o desejo do Outro. Este está implicado desde o início na constituição do sujeito. Mas o gozo não é o gozo do Outro. O ponto de partida do gozo é o corpo. O gozo só se apreende pelo corpo, pois só o corpo pode gozar.
No que se refere aos significantes, a relação também é diferente. O desejo está ligado a uma cadeia de significantes, sob relações de permutações, enquanto que o gozo estabelece relações de exclusão com os significantes. O gozo só adquire valor por estar retirado do “campo
do Outro, da instância da letra, da palavra, por estar evacuado do simbólico” (Miller, 1997 p. 153). E por ser rechaçado do simbólico que o gozo reaparece no real. Lacan admite o gozo como
o único real da prática psicanalítica. É ele que dá conta da existência do sintoma, da satisfação que o sujeito encontra em seus sintomas, o que Freud chamou de masoquismo primordial.
É o significante, portanto, que separa o gozo do corpo e a barreira que se estabelece entre os dois é o desejo. Este surge como defesa, pois o gozo é a perturbação do corpo, é a desarmonia. O gozo tem a ver com perturbações e por isso nem sempre é prazeroso. “O gozo precisamente é o que está mais além do princípio do prazer, está mais além como infração desse princípio” (Miller, 1997 p. 158). O princípio de prazer, então, equivale ao temor em gozar.
Em Teoria de los Goces (1997), Miller enumera os diferentes gozos. O gozo fálico, assim denominado, pois não implica relação com o Outro. É o Gozo do Um, barrado pelo significante Nome-do-Pai. O gozo do Outro, caracterizado como um gozo sem medida, pois não é barrado pelo falo, está fora do simbólico, da palavra. O gozo do a visto como mais-gozar, em que o sujeito procura sua completude não no sentido, mas no objeto. É um gozo mítico.
Intercalado ao conceito de gozo e significante, está o de sintoma. Freud em “Os caminhos da formação dos sintomas” introduz a vertente libidinal do sintoma a partir do entendimento acerca dos sintomas neuróticos como resultantes de um conflito no aparelho psíquico, cujo objetivo é a satisfação da libido. Esta, insatisfeita, busca outras maneiras de se satisfazer, encontrando sua saída em uma satisfação real. Para romper o recalcamento, a libido encontra as fixações necessárias nas experiências do início da vida sexual, que, por ocorrerem numa época de desenvolvimento incompleto – marcado pelo estado de desamparo e dependência absolutos –, são capazes de ter efeitos traumáticos. Conforme Freud, “de algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em uma sensação de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doença” (1917/1980, p.427). Portanto, se o sintoma causa desprazer e sofrimento por um lado, por outro há também satisfação pulsional.
Em Lacan, além da vertente libidinal, tem-se a significante, que preconiza o sintoma como uma formação inconsciente que se expressa pela fala. Para Lacan (1953) o sintoma é estruturado como uma linguagem: “já está perfeitamente claro que o sintoma se resolve por inteiro em uma análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a linguagem cuja fala deve ser libertada” (1953, p.270).
O significante necessita de Outro como destinatário. Ele não explica nada por si mesmo, está remetido á uma cadeia de significações e representações. O Outro, portanto, é o lugar do registro simbólico, do significante, e que em análise, é ocupado pelo analista. O sintoma implica um receptor marcando, assim, o lugar do Grande Outro na formação do sintoma.
De acordo com Miller, a impossibilidade de se representar tudo através dos significantes faz com que, na análise, haja um nó do significante, e neste nó está o gozo (1997). Ao ligar o significante ao gozo, Lacan (1969-70) aponta que “a repetição (...) é um traço na medida em que comemora uma irrupção de gozo” (p. 73).
A partir do segundo axioma de Lacan, que segundo o qual a “repetição está fundada sobre o gozo” (Miller, 2005) pode-se estabelecer a relação entre esses dois termos e observá-los na análise. Miller (2005) estabelece um posicionamento para o quatro conceitos fundamentais que Lacan enunciou no Seminário 11:

O inconsciente – A repetição
A transferência – A pulsão
_______________________

Este posicionamento evidencia uma disjunção entre a repetição e transferência, esta última relacionada ao fechamento do inconsciente e ao imaginário, e a primeira a uma abertura do inconsciente e ao simbólico. Deteremo-nos na repetição, tema aqui proposto.
Retomando o conceito exposto anteriormente de que “a constituição do campo do inconsciente se garante pelo Wiederkehr” (Lacan, 1964 p. 50), temos que o retorno dos significantes é o que dá a prova do inconsciente. Por isso tem-se a repetição do lado da abertura do inconsciente, no sentido de que a presença e eficácia deste são assegurados por aquela. Pode-se dizer, então, que a repetição está no princípio do conceito lacaniano de inconsciente (Miller, 2005).
Neste mesmo Seminário 11, Lacan enfatiza que para que o sujeito se manifeste é necessário que haja primeiro a repetição. Os sujeitos são determinados pela repetição, ou seja, pelo deslocamento dos significantes, e esta tem caráter simbólico. Acompanhado deste conceito, tem-se que a origem da repetição simbólica está na perda do objeto. O laço com o objeto é na verdade com o objeto perdido e a repetição seria um esforço para recuperá-lo. O caráter simbólico da repetição estaria, portanto, relacionado ao fato de que o “significante anula o objeto e substitui a satisfação que ele poderia dar pela repetição gratificante” (Miller, 2005 p. 166). Tem-se, assim, o “ponto zero do desejo”, chamado por Lacan, no início de seu ensino, como o zero de satisfação que o objeto poderia dar na repetição.
No Seminário 17, Lacan estabelece que a repetição somente tem valor a partir do gozo da pulsão, ou seja, ela está fundada sobre o gozo e todo o aparelho significante da repetição (o saber) só se insere no sujeito através deste. Relacionado a estes conceitos, temos o de “mais-de-gozar” introduzido por Lacan nesta época. O mais-de-gozar seria o resto advindo da operação de anulação do significante, seria “aquilo que fica”. Assim, a repetição seria a busca de gozo.
A repetição não é expressão do princípio do prazer, ao contrário, vai contra a vida. Para Lacan, (1969-70), a satisfação da repetição aponta para o impossível, para o Real como obstáculo ao princípio do prazer. Há, portanto, uma perda na repetição: um excesso de gozo que transborda o princípio do prazer. Essa ambigüidade permite colocar que o saber é meio de gozo, já que produz continuamente a perda deste.
Frente a um modo de funcionamento paradoxal do psiquismo humano, acredita-se que a análise visa a modificação do modo de satisfação constituído pelo sintoma, ou mais, do modo de organização do gozo. A partir dos casos expostos entende-se que a análise propicia o gozo da fala, o único gozo possível na análise. As pacientes resistem em mudar as situações penosas em que se encontram e insistem em repetir a mesma posição de aceitação diante do desejo do Outro. Trazem sua infelicidade e demonstram certo prazer peculiar em contá-las, rememorá-las. Fazem da análise lugar de gozo e do analista único receptor possível deste.

Bibliografia:

Lacan, Jacques (1964). O Seminário. Livro II. Os quatro conceitos fundamentais na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
____________ (1969-70). O Seminário. Livro XVII. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
____________ (1953). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Miller, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
_________________ Los signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 2006.
_________________ Silet: Paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

 

O Objeto a versus a fenomenologia

Marcelo Galletti Ferretti

O presente trabalho visa a abordar, de forma bastante sintética, o distanciamento promovido por Lacan da fenomenologia, corrente filosófica que causou grande repercussão na França a partir dos anos 1920, por meio da assunção teórica do objeto a. Trata-se, com efeito, de enfocar muito mais detidamente o percurso lacaniano, conquanto de modo sintético, do que ilustrar com vagar os preceitos do método fenomenológico. Desse modo, tais preceitos serão apenas anunciados, de maneira que o texto gravita sobre as teses lacanianas. Isso se deve à proposta da qual decorre o trabalho, que é de centrar foco sobre os ensinamentos transmitidos no curso de segundo ano do Clin-a. Dentre esses ensinamentos, resolvemos focar as relações de objeto em Lacan.          

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Os trabalhos de Husserl, criador do método fenomenológico, ensejaram questionamentos responsáveis por nortear boa parte da filosofia do século XX, cujas influências espraiaram-se por todo o território das ciências humanas. Para que a compreensão das teses husserlianas seja possível, não se pode deixar de compreender a noção de intencionalidade, que significa visar a alguma coisa, dirigir-se para. Diz-nos Husserl: “a explicitação fenomenológica não faz mais do que [...] explicitar o sentido que esse mundo tem para nós, anteriormente a qualquer filosofia e que, manifestamente, lhe é conferido pela nossa experiência” (HUSSERL, 1988, p. 190). Por conseguinte, nenhum conhecimento pode ser certo fora da existência do sujeito pensante. É o que nos diz Roudinesco, ao sintetizar os preceitos husserlianos (1994, p.104):
No estádio do cogito, o ser devia reduzir-se ao eu que pensa, isto é, ao ser do ego. Donde a noção de redução fenomenológica, que consistia em estabelecer o primado do ego e do pensamento, e que ultrapassava a experiência natural por uma visada da existência como consciência do mundo. O eu torna-se então transcendental, e a consciência, intencional já que visa a alguma coisa.
A consciência passa a ser encarada não mais como uma substância, à moda de Descartes, mas como uma atividade (noese) constituída por atos (noema).  
Particularmente na França, a obra husserliana começava a ser conhecida a partir da década de 20 e logo passou a exercer enorme fascínio sobre a intelectualidade francesa, no intervalo que se deu entre as duas grandes guerras, como nos mostra Roudinesco (1994). Segundo a autora, esse fascínio traduziu-se de maneiras diversas e seguiu por diferentes sendas, conforme os desenvolvimentos dos grandes leitores de Husserl - como Heidegger, Koyré, Canguilhem, Sartre e Merleau-Ponty. Lacan, intelectual interessado nos debates das ciências humanas, certamente não passou incólume pelo frissom causado pelas teorias husserlianas, procurando articular a “nova experiência de sujeito” (ROUDINESCO, 1994, p. 105), resultado da operação do método fenomenológico, à “tentativa de fazer valer uma forma de racionalidade humana fundada na determinação de um inconsciente freudiano” (idem).
Assim, em um de seus textos iniciais sobre psicanálise, Lacan (1988) celebra a “revolução do método freudiano” (p. 84), mas procura descrevê-la a partir da “experiência analítica” (p.85), regida por duas leis: a “lei da não-omissão, que promove ao nível do interesse, reservado ao notável, tudo aquilo que ‘se compreende por si’, o cotidiano e o comum” (idem), e a
lei de não-sistematização, que, postulando a incoerência como condição da experiência, atribui uma presunção de significação a qualquer rebotalho da vida mental [...] aos fenômenos que, por serem totalmente negativos, não têm, por assim dizer, estado civil: lapsos de linguagem e lapsos de ação (idem).
Pode-se observar, nesse texto inaugural, como Lacan mantém em seu horizonte, ainda que fiel aos preceitos freudianos, uma preocupação em “reconhecer uma realidade característica das reações psíquicas” (p. 85) – que só pode ser atestada ao se voltar ao fenômeno da experiência analítica tal como ele se apresenta na prática clínica – a qual apenas se mantém compreensível à luz das questões postas pela obra husserliana e seu imperativo do “retorno às coisas mesmas”. Dessa forma, Lacan se propõe a realizar uma “descrição fenomenológica da experiência analítica” (idem), na qual o dado primordial é a “linguagem, uma linguagem, isto é, um signo” (p.86).
Até aqui vemos aproximações entre Lacan e a fenomenologia husserliana. Miller (2003, p. 20) nos respalda, dizendo: “Aqui, o fenomenológico se reporta a Husserl. Quer dizer tentar pôr de lado os preconceitos para se descrever o que aparece tal qual é”. Contudo, durante sua descrição fenomenológica, Lacan prossegue de forma a não se esquecer da articulação dessa descrição com a descoberta freudiana, marcando que fala do lugar de psicanalista, e não de filósofo: “[...] o psicanalista, por não desvincular a experiência da linguagem da situação que ela implica, a do interlocutor, toca no fato simples de que a linguagem, antes de significar alguma coisa, significa para alguém” (LACAN, 1988, p.86, grifos nossos). O autor nos mostra que o sentido da fala é indissociável da existência desse interlocutor, que reconhece no sujeito uma intenção (reivindicatória, punitiva, propiciatória, agressiva) e ao qual é comunicada uma imagem. Assim, o sujeito informa ao interlocutor, ao analista, uma conduta própria de seu ser, uma imagem presentificada na relação com o analista a qual, não obstante, o sujeito ignora – “ignora que aquilo que repete em sua conduta, quer o tome ou não por seu, ele não sabe que essa imagem o explica; e ignora que desconhece essa importância da imagem quando evoca a lembrança que ela representa” (p. 88).
Devemos ressaltar a importância desse momento inaugural para que se vislumbre os possíveis liames e fossos entre o método fenomenológico e percurso lacaniano. Por um lado, o psicanalista francês mostra-se profundamente inspirado pela descrição fenomenológica, como afirma Miller (2003, p. 21), a qual permitiu que Lacan fundamentasse “a teoria da psicanálise a partir dos dados imediatos da experiência” e substituísse a “teoria de Freud por uma teoria elaborada a partir da experiência analítica concebida como comunicação, ou seja, como o desdobramento de uma fala que significa para o Outro”. Por outro lado, pode-se perceber que essa descrição não passa de um estilo que afirma seu verdadeiro esteio, a descoberta freudiana do inconsciente, de modo que Lacan serve-se disso para mostrar a materialidade do inconsciente – “a base material do inconsciente como dados imediatos é o tropeço, o escorregão, o deslizamento de palavra em palavra” (MILLER, 2003, p. 23) – e para corroborar o método freudiano, dizendo que “é nessa realidade específica das relações inter-humanas que uma psicologia pode definir seu objeto próprio e seu método de investigação” (LACAN, 1988, p.91). Desse modo, o psicanalista francês, como nos indica Miller, não propõe uma fenomenologia da percepção que seja pura, “mas, sim, uma fenomenologia da experiência analítica, ou seja, de uma experiência estruturada” (MILLER, 2003, p. 21) – embora Lacan vá se apoiar nas idéias propriamente estruturalistas num momento posterior, consideramos que o autor já dá indícios de uma estruturação, nesse texto de 1936, ao conceber a experiência analítica como regida por leis.
Todavia, serão precisos mais de 25 anos para que o percurso lacaniano desemboque na formulação do objeto a, a qual, como sintetiza Miller (2005, p.291), “substitui o acordo a-a’ do imaginário por uma desarmonia”, impondo, como se verá a seguir, uma distinção insuperável com relação ao preceito fenomenológico da intencionalidade. Assim, no Seminário IV, da primeira vez em que Lacan se debruça de forma detida sobre as relações de objeto, ainda opera em seu pensamento esse acordo imaginário. No entanto, desde o primeiro capítulo o tema da angústia é abordado, bem como sua íntima relação com o objeto:
o objeto é instrumento para mascarar, enfeitar o fundo fundamental da angústia que caracteriza, nas diferentes etapas do desenvolvimento do sujeito, sua relação com o mundo [...] O objeto encerra o sujeito num certo círculo, uma fortaleza no interior da qual ele se põe ao abrigo desses medos [...] O medo dá ao objeto o seu papel, num momento determinado de uma certa crise do sujeito, que não é, no entanto, nem típica nem evolutiva” (LACAN, 1995, p. 21).
É necessário ter em vista que o autor preconiza, seguindo Freud, a angústia como sem objeto; este aparece como forma de proteção do sujeito contra o vazio, contra a sensação do nada. É nesse ponto em que, alguns anos depois, Lacan promove uma modificação: a partir do Seminário 10, o autor passa a afirmar que, no lugar da hiância que angustia, de um vazio sem objeto, está o objeto a.
É preciso termos ciência das conseqüências dessa retificação no que tange às intersecções entre a psicanálise lacaniana e a fenomenologia. Isso o próprio Lacan nos anuncia:
O que se trata de precisar concerne à miragem proveniente de uma perspectiva que podemos chamar de subjetivista, uma vez que, na constituição de nossa experiência, ela deposita toda ênfase na estrutura do sujeito. Essa linha de elaboração, que a tradição filosófica moderna levou a seu ponto mais extremo, ali pelas imediações de Husserl, através do destaque da função de intecionalidade, faz-nos cativos de um mal entendido acerca do que convém chamar de objeto do desejo. Ensinam-nos, com efeito, que não há nenhuma noese, nenhum pensamento, que não esteja voltado para alguma coisa. Esse é o único ponto, ao que parece, que permite ao idealismo encontrar seu caminho para o real. Mas, pode o objeto do desejo ser concebido dessa maneira? Será que o é no que diz respeito ao desejo? (LACAN, 2005, p. 114).
Como se imagina, trata-se de prenunciar uma divergência fundamental com a fenomenologia, pois se verá que objeto não é visado pelo desejo, mas antecede este enquanto causa, e é aí que reside a angústia:
Para fixar nossa meta, direi que o objeto a não deve ser situado em coisa alguma que seja análoga à intencionalidade de uma noese. Na intencionalidade do desejo, que deve ser distinguida dele, esse objeto deve ser concebido como a causa do desejo. Para retomar minha metáfora há pouco, o objeto está atrás do desejo (idem, p.115).    
Antes de se desenlaçar de Freud em direção a seu último ensino – que, como nos ensina Miller (2003, p.22), “conduziu Lacan a uma nova fenomenologia”, ordenando “um real fora do sentido”, “um real prévio ao que a estrutura dá sentido, e que, por isso mesmo, não pode ser definido [...] senão como fora de sentido [...] –, Lacan se desenlaça da fenomenologia, e isso se dá apenas a partir de suas teorizações, impulsionadas pela experiência clínica, acerca do objeto.

 

Referências

HUSSERL, E. Meditações Cartesianas. Porto: Rés, 1988.
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
________ . O Seminário – as relações de objeto, livro IV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
_________. O Seminário – a angústia, livro X. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
MILLER, J.A. Silet – os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2005.
________. O último ensino de Lacan. Opção Lacaniana, 35, São Paulo, 2003.
ROUDINESCO, E. Lacan – esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das letras, 1994.

 

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